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[Jan. 10th, 2007|10:13 am] |
every sperm is sacred ou os vários lados do poliedro aborto o que são 'abortos':. os casais família-cristã e canção-nova entoando o 'every sperm is sacred' dos python são abortosestes senhores e senhoras 'pró-vida' (designação abrangente, pois vida vai desde a vaca que vai para o hamburguer como a rosa que vai para o bouquet, e que imediatamente, e sem redenção, encurrala os outros em 'pró-morte', em coveiros dos inocentes), estes casais procriadores que posam de mãos entrelaçadas na capa da 'família cristã', estes rosadinhos cantores do canal 'canção nova', recomendam abstinência, ou então, ensinam a pecar com método, seja o dos graus ºcaloríficos ou o da interrupção do gozo do coito, enquanto mostram polaroids chocantes onde jazem criancinhas (nunca embriões, claro). normalmente, estes senhores aparecem ligados à igreja, a uma igreja de padrecas homens que nunca soube lidar com mulheres, uma igreja que biblicamente só aprendeu a lidar com virgens ou putas, e que não sabe lidar com mulheres que têm sexo, simplesmente porque - imagine-se! - têm vontade de. . os porta-vozes dos estereótipos são abortosaqui, encontramos os defensores da despenalização, que se acham porta-voz de todos os guetos sociais, indo buscar todos os estereótipos femininos, e que supostamente conhecem de ginjeira: as mulheres violadas pelos maridos, as toxicodependentes, passando pelas matriarcas de famintas famílias numerosas, e caricaturizam os anti-despenalização como sendo todos uns ricaços hipócritas, uns bem-nascidos, onde invariavelmente, as mulheres têm madeixas loiras, tratam os filhos por você, e são incapazes de encarar a maternidade sem o recurso a baby-sitters para as ocasiões em que ou têm de ir pôr botox nos vincos ou desfazer-se dos inconvenientes abdominais a badajoz. neste feudo ainda encontramos os defensores do sim, que acham que toda a defesa da despenalização do aborto é, no fundo, a encapotada defesa da liberalização sexual, do regabofe carnal, e os que a defendem não passam é de uma cambada de copuladores compulsivos, uns one-night-stand-fuckers, capazes da mais símia promiscuidade. shame on them! . os defensores do 'nascimento digno' são abortosestes senhores - maioritariamente de esquerda - para defender o aborto usam argumentos que rondam o sinistro conceito do *nascimento digno*. e na defesa do aborto trazem à discussão questões como a miséria, as condições materiais, a flacidez psicológica dos progenitores, o historial macabro da casa pia, ou outros trapos sociais. isto é tão perigoso, e que ceguinha vai esta esquerda que, com estes argumentos, nem vê que anda de mãos dadas com uns certos senhores famosos que entraram para a história por esturricarem quem não merecia viver, que com este argumento, esta esquerda selecciona os mais fortes, os mais sadios, os mais branquinhos, os que serão ricos, os que serão felizes, os que não terão pulgas, os que não terão fome, os que não darão em toxicodependentes, os que não sobrelotarão os bairros sociais, os que não serão um dia espancados pelos pais. . as histéricas do na-minha-barriga-mando-eu são abortosestas senhoras berram que na barriga delas mandam elas, são as fundamentalistas da palermice, que se julgam grávidas sem ingerência masculina, ou por obra e cópula de um qualquer espírito-santo-reprodutor, e que podem sobrepôr-se aos conceitos de consciência humana, de valores, de moral, ou ética. . o espalhafato do barco do aborto é abortoeu sinceramente, e sem pingo de ironia, agradeço toda a ajuda de estrangeiros no reacender da discussão do aborto, e acho que nestas questões não deve haver fronteiras, e que a pressão externa tem toda a legitimidade. por exemplo, se a excisão feminina se praticasse por cá, eu também agradeceria que holandeses, belgas, franceses e ou outros viessem cá meter o bedelho. no entanto, acho que a forma assumida de intervenção degrada o assunto e rasteira o nível da discussão. não consigo deixar de achar tétrica esta barcaça, e de achar que conseguiriam melhor os seus propósitos se entrassem de combóio pelas fronteiras adentro e fizessem manifestações garridas e barulhentas em todos os apeadeiros por onde passassem. . o nosso ministro da defesa e demais senhores dos assuntos do mar são abortosnunca me incomodou - nem poderia, porque só a ele diz respeito - que o nosso ministro da defesa goste de se vestir de catherine deneuve e deambule bamboleante pelo parque eduardo vii. não creio que o que o senhor faz com a sua pilinha e rabinho lhe retire qualquer legitimidade em matéria de política militar ou em matéria de folga das malhas de arrasto. no entanto, quando estes moralistas de pau oco vêm em brados ó-moral isto já me começa a incomodar. principalmente, quando estes senhores que, ao que consta, guardam cabeleiras loiras no porta-luvas, recorrem ao maior cinismo, desplante e lata, e vêm invocar problemas de 'saúde pública' relativamente ao uso de fármacos não autorizados em portugal, quando aparentemente convivem bem com a imundície que são os abortos neste país, feitos em vãos-de-escada às mãos de carniceiras mais ou menos habilidosas. isto é de um cinismo que me eriça. o que não é 'aborto':**no sentido pejorativo que lhe dei acima:
. a interrupção voluntária da gravidez até às 10-12 semanas
para se poder discutir a questão legal, há que primeiro, e impreterivelmente, passar pela análise das seguintes questões: onde começa a vida? um feto com 10-12 semanas é um ser humano, ou não?
mas é precisamente aqui que tudo fica nublado: quando é que somos vida? parece-me que, até ao presente momento do nosso conhecimento, o melhor critério não é a fecundação, não é o bater do coração, não é a formação de um embrião nítido, não é a dor, mas sim, é a vida cerebral.
se se podem desligar as máquinas a alguém que está em coma, com base no pressuposto de vida cerebral, então parece-me que este pode ser o pressuposto adequado para decidir a interrupção da gravidez. do que sei (corrijam-me se já estiver desactualizada) só há vida cerebral num embrião muito para lá das 10/12 semanas. como tal, 10/12/14 - o que for entendido por quem deva, e não eu - parece-me ser uma adequada fronteira, para aquém da qual o que há, é apenas possibilidade de vida, para além da qual há o pressuposto de vida concreta.
e, assim, para mim, um feto com 10-12 semanas não é vida. todavia, claro que o aborto é sempre a interrupção de um processo de vida. e ao abortar, há sempre uma criança que não nasce. o que não implica (realço!) que haja uma criança que morre. não. e isto não é uma mera questão semântica, é a questão moral em si. o verdadeiro conceito a estabelecer.
eu precisei de chegar a uma conclusão pessoal de saber onde começa a vida humana. porque, para mim, a partir do momento que ela existe é inviolável. (claro que concedo algumas excepções, assim como, mesmo defendendo a inviolabilidade da vida, convivo bem com o assassínio em legítima defesa - facilitei aqui na analogia, mas pareceu-me necessário)
e tendo chegado eu a esta conclusão, tolero e aceito que qualquer outra pessoa, homem, ou mulher, de direita, ou de esquerda, com dinheiro, ou indigente, que, tendo ponderado sobre esta questão, defenda a penalização. com o que tem de haver é um debate sério, sem os abortos que referi ali em cima, os folclóricos de serviço.
claro que sei e concedo - não tenho ilusões - que, despenalizando o aborto, muitas mulheres passarão a encará-lo com leviandade, e que sem pensar duas vezes, recorrerão a ele. sim, há muitas mulheres que nunca na vida foram responsáveis, ponderadas ou lúcidas, e, obviamente, passarão a ver o aborto como um recurso, uma rede para o caso de se esquecerem da pílula, ou para o caso de já não restar um preservativo na mesinha-de-cabeceira. obviamente que sim, o que não faltam é mulheres irresponsáveis e obtusas, e que recorrerão a ele de ânimo leve, sempre que a gravidez 'não dê assim lá muito jeito', e que, uma vez praticado, não necessitarão de qualquer apoio psicológico de recuperação pós-traumática.
mas acredito, sinceramente, que a maioria das mulheres que, por um motivo ou outro decidirem recorrer a um aborto o farão em consciência, porque, felizmente, para a maioria, mesmo que não religiosa, a vida é sempre um milagre. é-o, pelo menos para mim, que mesmo sem ter fé, encaro com permanente espanto, a vida como um milagre. o simples facto de ter uns pulmões que respiram sem que eu lhes mande, ou um coração que, para além de bater sozinho, se alvoroça quando vejo o meu amor a vir, é uma maravilha.
bem, e deixo a reflexão por aqui, sem aflorar outras questões que esta traz a reboque, mas sobre as quais deixei pistas claras sobre a minha posição, e que vão desde a utilização dos rejeitados das fertilizações em vitro, à pílula-do-dia-seguinte, ao aborto terapêutico quando a vida da mãe está em perigo, ao aborto quando há malformações do feto, sejam elas doenças mentais, ou corpos amputados, consequências de outras doenças, ao aborto em caso de violação, até à pena de morte, enfim, a tudo que interfira com o começo de vida ou começo de morte.
[isto foi repescado de 2004] |
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