Concerto da Jacinta ontem no Gil Vicente, a apresentar, em tour, o disco Convexo (A música de Zeca Afonso). O concerto segue o alinhamento do disco, e o formato é o mesmo, em trio, com Rui Caetano no piano e Bruno Pedroso na bateria. Comprei o cd aqui há uns meses, e tinha achado o projecto interessante, ainda que não absolutamente distintivo em termos de releitura da música de José Afonso. Mas Jacinta é uma excelente cantora, e o formato de trio, com piano e bateria é estimulante. O concerto de certa forma confirmou essas impressões do cd, nomeadamente quanto à leitura um pouco lisa das canções do JA. Claro que é sempre preferível manter as versões o mais perto possível do original a fazer variações muito elaboradas e totalmente desadequadas, algumas mesmo estapafúrdias (adoro esta palavra). Mas há outros projectos, como por exemplo os Coupplecoffe que já provaram que é possível fazer leituras originais das canções do Zeca. No entanto, nada disso faz perigar o jazz de Jacinta, a sua voz quente envolvente e o modo seguro como ela domina a melodia, o que torna o seu scat sempre muito eficiente, nada daqueles estribilhos exibicionistas que tantas vezes vemos. Os músicos excelentes, com aproximações muito discretas aos respectivos instrumentos, principalmente o piano de Rui Caetano. Tal como no disco, o que mais me agradou (para além da belíssima voz da cantora, é óbvio) foi o funcionamento do trio, a forma como foi aproveitada, e desenvolvida, a interacção entre os três elementos. Em suma, foi um belo concerto, que nos devolveu um prazer muito musical de escutar algumas das mais belas canções do José Afonso.
Não acho nada bem que o Primeiro-Ministro aproveite o facto de estar num voo fretado da TAP e que ninguém tenha coragem de lhe chamar a atenção, para fumar a bordo de um avião. Nem me parece que seja sinal de prepotência, de quero, posso e mando, e como sou PM posso fazer tudo o que quero. Acho sinceramente que é mais uma questão de provincianismo, bem portuguesinho, de fazer uma coisa que é proibida apenas porque se consegue safar. Não será tanto uma questão de carácter (como a prepotência ou o autoritarismo), mas sobretudo de mentalidade – uma parolice. Do mesmo calibre da história da licenciatura. E como todo o provincianismo, é igualmente uma questão de hipocrisia, de fazer as coisas atrás da cortina (‘debaixo dos panos’, como numa canção antiga do Ney) para que ninguém veja. Não interessa ser, mas sim parecer. Mas se o comportamento do PM é, nesta estrita medida, reprovável, convém lembrar que fumar não é um crime nem um pecado. Não é um comportamento desviante, pelo menos por enquanto, nem um atentado à moral. Por outro lado, se o facto de alguém fumar a bordo põe em causa a segurança dos passageiros e da tripulação, então não percebo como é que ninguém da tripulação, em última análise o comandante, mandou os cavalheiros apagar os cigarros.
Agora devo dizer que tão parolo me pareceu o comportamento do PM, como a notícia da edição de hoje do Público relata (ia escrever ‘delata’) os acontecimentos a bordo (fica aqui o link http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1328604, mas não sei se funciona). Tudo na notícia me soa mal: o tom recriminatório e ressabiado, o relato muito ‘vidinhas’ cheio de pormenores, os testemunhos indignados mas anónimos não vá o diabo tece-las. Convenhamos, o artigo ainda é mais provinciano do que o próprio comportamento do PM. É mesquinho e medíocre, faz lembrar aquelas senhoras muito feias que passam a vida a cortar na casaca das miúdas giras, com uma inveja muito cotovelar. Não ponho em causa o interesse da notícia e o critério editorial do jornal. Percebo que haja interesse em divulgar um comportamento do PM que tão claramente transgride uma lei que se refere a um assunto no qual o governo não foi neutro, ao ponto de ter legislado no sentido de alargar a proibição do fumo de tabaco. O que me parece infeliz, e indigno da tradição do Público, é o tom despeitado do artigo.
Descobri esta canção a passear pelo youtube, numa daquelas sessões em que andamos de uns clips para outros, ao sabor do acaso e das sugestões do programa. Foi aqui há uns meses, quando comprei o último disco do Seu Jorge e andava a procurar clips com as canções do álbum América Brasil. Não conhecia a canção e, mais grave, não conhecia a Leci Brandão. Claro, já tive oportunidade de rasurar a lacuna e descobrir que a Leci Brandão é um nome gigantesco do samba e que além disso empresta muitas vezes o nome e a voz a causas sociais, nomeadamente as que se prendem com a luta contra o racismo e a homofobia. Na origem esta canção é um samba bem marcado e há clips no youtube que o comprovam. Por isso é verdadeiramente mágico o que Seu Jorge faz nesta gravação, que julgo tirada do show que fez em conjunto com Ana Carolina. E se como samba a canção era irresistível, nesta versão de balada ('balada' no sentido português do termo, digo português de Portugal, não da língua), com a voz de poderoso veludo do Seu Jorge, é perfeita. Atravessada por uma melancolia dorida que põe em destaque o alcance social das palavras. Uma canção que nos deixa tristes a pensar num mundo melhor, que nos põe no coração uma ânsia de felicidade, de paz, de alegria.
No serviço de auto-falante Do morro do Pau da Bandeira Quem avisa é o Zé do Caroço Que amanhã vai fazer alvoroço Alertando a favela inteira
Ai como eu queria que fosse em Mangueira Que existisse outro Zé do Caroço Pra falar de uma vez pra esse moço Carnaval não é esse colosso Nossa escola é raiz, é madeira
Mas é o Morro do Pau da Bandeira De uma Vila Isabel verdadeira E o Zé do Caroço trabalha E o Zé do Caroço batalha E que malha o preço da feira
E na hora que a televisão brasileira Distrái toda gente com a sua novela É que o Zé bota a boca no mundo Ele faz um discurso profundo Ele quer ver o bem da favela
Está nascendo um novo líder No morro do Pau da Bandeira Está nascendo um novo líder No morro do Pau da Bandeira
No passado fim de semana o Manchester City perdeu por uns expressivos 8-1 contra o Middlesbrough naquele que foi o derradeiro jogo de Sven-Goran Eriksson como treinador da 'outra' equipa de Manchester. Deve ser mesmo verdade que o sueco vem treinar o clube de futebol anteriormente conhecido como o maior clube português - pelo menos já está a estagiar para treinador do Benfica.
Um pouco no rescaldo da minha viagem ao Vietname revi três dos filmes sobre o conflito mais conhecidos. Não gostei nada de Good Morning Vietnam. Quer dizer, não tinha desgostado quando o vi, há 20 anos, quando saiu, mas agora achei-o muito fraco do ponto de vista narrativo, e achei insuportáveis algumas das cenas mais histriónicas do Robin Williams. É, apesar de tudo, um filme que tem uma visão critica não tanto sobre a guerra em geral, mas sobre a gestão política em concreto do conflito do Vietname tal como foi feita pelas autoridades norte-americanas. Curiosamente há uma cena em Platoon, o já clássico de Oliver Stone, e que foi feito um ano antes da fita de Barry Levinson, em que se ouve num rádio a voz de Adrian Cronauer a dizer o célebre cumprimento Gooooooood Morning, Vietnam.
O Platoon tem, como tinha há 20 anos, o condão de me comover muito. Apesar de ser um filme político, como todo o cinema de Stone, consegue dar muita vida aos personagens, e sobretudo transmite muito bem a sensação de desespero e coragem, animada por uma vontade de sobreviver, de chegar vivo ao fim, que deve animar todos os soldados que têm experiência do teatro de guerra. É ainda, de certo modo, e de todos os filmes feitos sobre o Vietname, aquele que, por razões que nem sou capaz de elaborar muito bem, aquele que mais me faz lembrar a nossa própria guerra colonial. Talvez o facto de a câmara se manter sempre tão próxima dos soldados nos crie uma certa familiaridade, ou uma solidariedade familiar, que me remete para os muitos soldados portugueses que conheci durante a então chamada guerra do ultramar.
Apocalypse Now é um portento de um filme. Apesar de estarmos muito habituados a ver determinadas sequências do filme, o facto é que já não o via com atenção e de fio a pavio, há muito tempo. E surpreendeu-me o tom quase artesanal do filme, o modo como podemos ler as cenas, não apenas do ponto de vista da sua carga simbólica, que é sempre rica no filme de Coppola, nem apenas no seu valor narrativo, enquanto sequências de uma história que se quer contar, mas inclusivamente do ponto de vista técnico. Podemos quase perceber como cada plano foi feito, como foi criado e posto em cena, podemos sentir as costuras do filme, passar os dedos pela rugosidade e sentir onde cada sequência encaixa na anterior e na seguinte. E isso, o facto de quase adivinharmos o trabalho do realizador, engrandece a obra, não tanto por lhe dar uma certa caução autoral, mas por o tornar um filme muito pessoal, quase como se fosse possível que Francis Coppola o tivesse feito sozinho.
O Bob Geldof foi um dos meus ídolos de juventude. Conheci-o como cantor dos Boomtown Rats, através da que foi e continua a ser uma das minhas canções pop favoritas, I Don’t Like Mondays, incluída num LP de 1979, The Fine Art of Surfacing, o único disco deles que eu comprei, e numa fase em que os Rats já estavam a deixar de ser uma banda cool dos tempos do punk e da new wave. Depois, durante os anos 80, e para além de ter feito o filme The Wall, dos Pink Floyd, o Bob Geldof era, pelo menos para mim, essencialmente o namorado, e depois marido, da Paula Yates, a co-apresentadora, juntamente com o Jools Holland, do The Tube, um programa de música que passava no Channel 4 em Inglaterra, e ambos constituíam assim uma espécie de casal real da cena pop e rock britânica. Eu adorava o The Tube, não sei se foi o melhor programa de música que eu vi feito em televisão, mas pelo menos foi o que mais impacto teve em mim. E a Paula Yates era uma mulher admirável, com sentido de humor, muito forte, outspoken como se diz em inglês, com uma enorme tatuagem no braço numa época em que as pessoas ainda não usavam tatuagens. O casal esteve junto durante quase 20 anos, depois a Paula Yates deixou o BG para ir viver com o Michael Hutchence, dos INXS. O Michael Hutchence morreu pouco tempo depois, e a Paula Yates entrou num processo de degradação que terminou numa morte por overdose em 2000. Isto escrito assim parece mera crónica social, mas devo dizer que vivi sempre com alguma intensidade os percursos de vida destas pessoas, e a morte da Paula Yates fez-me uma impressão terrível. No Natal de 1984 o Bob Gelgof reuniu uma mão cheia de ídolos pop do momento e lançou a que continua a ser a minha canção de Natal preferida, a Do They Know It’s Christmas, e esta lançado um projecto de caridade voltado para o combate da fome em África que haveria de culminar com o acontecimento à escala mundial Live Aid, em Julho de 1985. Eu estava em Londres na altura do Live Aid e acho que estive mais de 24 horas em frente à TV, a ver os concertos, de t-shirt vestida. Ainda há pouco tempo, a dar voltas às gavetas em casa dos meus pais, encontrei essa t-shirt do Live Aid, juntamente com outra, da mesma altura, que dizia Frankie Says, e que foi uma moda lançada pelos Frankie Goes to Hollywood. Fundamentalmente o Bob Geldof trocou, a seguir a isso, uma carreira de cantor pop por uma de activista político, e que o trouxe a Lisboa um dia destes para participar numa conferência qualquer, e na qual, honrando uma tradição de falar curto e grosso sem receio de ser inconveniente, deixou os meios diplomáticos e financeiros em apuros ao afirmar que Angola é governada por um bando de criminosos. Nada que toda a gente também não diga, mas uma coisa é dizer-se à boca pequena, salvaguardando as aparências e os interesses, e outra é fazer o que Gelfdof fez, por a boca no trombone sem punhinhos de renda.
Apesar de hoje ser Thank God It’s Friday, e portanto estarmos na antítese de I Don’t Like Mondays, aí fica, em homenagem ao Bob Geldof e à sua desbocada e abençoada bocarra de irlandês mal humorado, aquela que continua a ser uma das minhas canções preferidas, e que, apesar dos anos, ainda sou capaz de acompanhar quase a letra toda de cor e salteado.
The silicon chip inside her head gets switched to overload and nobody's gonna go to school today she's gonna make them stay at home And Daddy doesn't understand it He always said she was good as gold And he can see no reason Cos there are no reasons What reasons do you need to be shown
Tell me why I don't like Mondays I want to shoot The whole day down
The telex machine is kept so clean and it types to waiting world. And Mother feels so shocked Father's world is rocked And their thoughts turn to Their own little girl Sweet 16 ain't that peachy keen No it ain't so neat to admit defeat, They can see no reasons Cos there are no reasons What reasons do you need to be shown
Tell me why I don't like Mondays I want to shoot The whole day down
All the playing's stopped in the playground now She wants to play with her toys awhile And school's out early and soon we'll be learning That the lesson today is how to die And then the bullhorn crackles And the captain tackles With the problems and the how's and why's And he can see no reasons Cos there are no reasons What reasons do you need to die
Terminei há pouco a leitura de uma breve biografia do actor João Villaret, da autoria de António Carlos Carvalho. Trata-se sobretudo de um levantamento, que parece exaustivo, do trabalho de Villaret, como actor e declamador, inventariando peças e recitais, em Portugal, e nos restantes pontos do globo onde o actor levou a sua arte, o Brasil, a Argentina e as na altura colónias portuguesas em África. O livro reúne ainda extractos de entrevistas e outros textos de Villaret, notas críticas e testemunhos de colegas e amigos. Infelizmente para se tratar de uma verdadeira biografia falta ao livro a própria vida do biografado. O livro quase nada nos diz da vida de Villaret, nem sequer ensaia um retrato psicológico um pouco mais denso e profundo, que ultrapasse a superfície do elogio e do adjectivo grandiloquente. Ficamos mesmo sem conhecer a pessoa de Villaret, e se não fosse uma brevíssima referência no testemunho do acto Rui de Carvalho, passaria completamente em branco o facto de não apenas Villaret ter sido homossexual, mas sobretudo o de ter vivido essa condição de forma mais ou menos assumida, numa época em tal era mais do que socialmente reprimido.
Gosto muito de ouvir o João Villaret dizer poemas e devo-lhe, acho eu, gostar de ler poemas. Como acontece com muitas outras coisas (por exemplo com as línguas) o meu gosto pela poesia é sobretudo musical, gosto do som, da música das palavras, e esse gosto nasceu a ouvir a espantosa musicalidade dos poemas ditos pelo Villaret. Tão espantosa, que eu acho que o Villaret algumas vezes sacrificava a inteligibilidade do texto apenas para ir atrás da música das palavras. O Cântico Negro é um clássico, é impossível pensar esse poema do Régio, ou a sua Toada de Portalegre, sem ouvir o Villaret. Ou o Menino de Sua Mãe, que foi o meu 'primeiro poema' do Pessoa. Ou O Caso do Vestido de Drummond (que já pus aqui). Ou um dos meus preferidos (que também já pus aqui), a Senhora de Brabante, de Gomes Leal.
Apesar de ser um tema que me interessa, não consigo ter uma opinião muito firme e definitiva acerca do acordo ortográfico. Acho que é uma daquelas questões em que todos têm uma quota parte de razão, e em que, no calor do debate, é muito fácil começar a forçar os argumentos e perder essa razão toda.
Digamos, para balizar a questão, que não me parece em absoluto necessário um acordo internacional que uniformize a grafia das palavras em português, embora me pareça fundamental que haja uma norma que consagre uma espécie de grafia padrão e eventuais variantes. Pode parecer a mesma coisa mas, pelo menos na minha ideia, não é. Um acordo ortográfico pretende, através do compromisso entre as partes acordantes, estabelecer em definitivo (enfim, enquanto dure, claro) uma determinada grafia que deverá ser adoptada por todos os que utilizam a língua escrita. Uma norma diz-me que podendo embora haver várias maneiras de grafar a palavra, há uma (ou duas ou três ou quantas forem) que do ponto de vista semântico ou gramatical ou etimológico é a mais adequada. Um pouco como os certificados de qualidade: eu posso fazer as coisas de diversas maneiras mas se isto tem um certificado de qualidade eu posso estar garantido que foi feito da maneira mais adequada.
Agrada-me a ideia de haver um livro qualquer (ou um site da net, vamos lá) que me diga como é que se deve grafar o superlativo absoluto sintético de bom, embora eu me queira reservar o direito de escrever óptimo ou ótimo conforme o uso do lugar onde estou ou conforme escrevem os escritores da minha terra.
Agora o que me irrita supinamente é o nacionalismo serôdio que vem agarrado à maior parte dos argumentos avançados contra o acordo ortográfico que foi estabelecido pelos países de língua oficial portuguesa, e em processo de ratificação por Portugal (razão de toda esta polémica, já que o texto inicial do acordo data de 1990), e que visa terminar com a dupla variante gráfica da língua portuguesa, a que é usada no Brasil e a que é usada nos restantes países. Incomoda-me que os portugueses guardem alguns tiques de superioridade em relação a todos aqueles povos cujas terras nós colonizámos, e que se julguem os donos da língua ou mesmo da cultura lusófona.
E incomoda-me porque de facto isso não traduz nenhum sentimento de superioridade, mas, ao invés, dá voz ao enorme complexo de inferioridade que os portugueses hoje sentem por terem sido tão importantes no mundo e hoje serem tão pouco determinantes. A verdade é que Portugal já foi dono do mundo (se é que de facto o foi alguma vez) mas não é capaz, hoje em dia e desde há muito tempo, de dar a volta a si próprio e assumir qualquer papel de liderança no concerto das nações. Nem na Europa nem fora dela. Não somos capazes de ser líderes, embora não o assumamos e estamos sempre a menosprezar os outros e a inventar desculpas para a nossa cepa torta.
E se já estamos mais ou menos conformados em ser o carro vassoura dos alemães ou dos franceses ou dos ingleses ou dos espanhóis (ui, o que isso nos doeu!, mas já nos habituámos) e qualquer dia dos polacos e dos húngaros também, a verdade é que nos custa muito aceitar sermos ultrapassados por todos esses povos a quem até há poucas décadas ou até há poucos séculos, tratávamos com o paternalismo autoritário e benevolente com que as patroas tratavam as criadas.
E o que nesta reacção ao acordo está em causa é que para muitos portugueses ele é a confirmação oficial de que o Brasil hoje em dia é um país incomparavelmente mais importante no xadrez do mundo do que o nosso Portugal. Ou melhor, o que está em causa é nós reconhecermos isso, é assumirmos que o Brasil já não é apenas um país mais importante e influente do que o nosso, mas até já nos lidera a nós! E de que já não servem as desculpas de que o Brasil tem muitas riquezas e recursos naturais, pois até na própria cultura, até na língua, esse património de Camões e de Pessoa, hoje em dia são os brasileiros que influem, que determinam, enfim que lideram.
Youth Without Youth, o mais recente filme que Francis Coppola realizou depois de 10 anos sem filmar, é um filme complexo e nada fácil. Como é um filme que tem gerado polémica, e opiniões muito contraditórias, devo dizer que adorei o filme, apesar de o ter achado um pouco errático do ponto de vista narrativo. Mas é um filme belo e intrigante, com um certo sabor anacrónico, das coisas que já não há, que nunca recua perante o insólito das situações. Em breves traços, conta a história de um linguista romeno, Dominic, que sacrificou a vida e o amor pela sua dedicação ao trabalho, e que, com 70 anos, se sente velho e desanimado com a certeza de que a obra da sua vida, a descoberta da linguagem primordial, nunca será acabada. No dia em que planeia suicidar-se, com estricnina, é atingido fulminantemente por um relâmpago, mas, em vez de morrer, começa a recuperar no hospital e inicia um processo de rejuvenescimento. A sua história torna-se conhecida na Europa da II Guerra Mundial e o nazis cobiçam-no para o estudarem, na sua desvairada tentativa de criarem o homem novo, o super-homem. Dominic refugia-se na Suiça neutral, onde passa a residir e onde, já depois da guerra, conhece Verónica, que é a re-figuração de Laura, o seu amor de juventude. Verónica é igualmente atingida por um raio que a faz regredir a reencarnações anteriores, permitindo-lhe falar linguagens antigas e, desse modo, auxiliar Dominic no seu trabalho de pesquisa histórica. O problema é que estas regressões lhe provocam um envelhecimento precoce. É importante atentar na história que o filme conta para se tentar perceber, não só o que nela atraiu Coppola, mas também como o filme defende uma estranheza que chega a ser desconcertante, e que exige do espectador (pelo menos deste espectador) um pequeno esforço no sentido de aceitar a verdade da história que se conta. O tom onírico do filme, com a multiplicidade de planos narrativos, aliado a uma certa melancolia centro-europeista, e a um irrecusável fascínio por uma cultura intelectual que aceitava a ciência como o grande desafio do homem moderno, tudo isso confere ao filme a irresistível aura de uma obra que é sempre maior do que aquilo que dela vamos conseguindo extrair. Acresce que Coppola filma com mão de mestre, sacrificando muitas vezes a economia do filme em nome da perfeição do plano e da sequência. E, naquilo que é uma das suas marcas enquanto realizador norte-americano, procura sempre inscrever o filme numa matriz clássica do cinema de Hollywood ao mesmo tempo que não teme correr riscos. É uma tentação achar que Youth Without Youth (título cheio de janelas e indícios que se perdem na tradução de Segunda Juventude) é mais um filme falhado, para mais tratando-se de uma obra de Francis Coppola, cujo essencial da filmografia se divide entre obras-primas absolutas e obras-primas fracassadas. Para mim trata-se de um dos mais belos e fascinantes filmes do ano.
O jornal Público divulgou hoje (3 de Maio) alguns resultados de um Inquérito Saúde e Sexualidade (2007), realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e segundo o qual cerca de 70% dos portugueses (o estudo foi feito com rigor e por isso a amostra é representativa) consideram erradas as relações sexuais entre adultos do mesmo sexo. Ou seja, os portugueses são aquilo que já se sabia que eram, homofóbicos. Entre as camadas mais jovens a percentagem desce para os 53%, ainda assim altíssima. Não sei se a escala utilizada era a que fazia mais sentido (as relações entre pessoas do mesmo sexo são totalmente erradas, a maior parte das vezes erradas, algumas vezes erradas ou raramente erradas), por aplicar uma ideia de frequência a uma decisão que é substancialmente do plano da moral. Mas podemos dar isso de barato, pois estou convencido que com esta ou com outra escala, o resultado acabaria por ir bater no mesmo. Confesso que fiquei um bocado perplexo com o resultado. Não que tenha ilusões e pense que vivemos numa sociedade mais tolerante do ponto de vista da moral sexual, mas porque aparentemente vive-se em Portugal um certo clima de descontracção religiosa e de progressismo das mentalidades. Pelos vistos, esse clima é mesmo só aparente. Sempre fomos muito peritos na arte do parece bem, do social e politicamente correcto, das conveniências. E percebemos que fica bem ser-se moderno nas posições que tomamos, evitando desse modo o confronto com os outros e, pior, o seu juízo crítico. Sempre preferimos uma certa concórdia hipócrita e cobarde, à frontalidade e à violência do debate, sobretudo porque não sabemos o dia de amanhã e é sempre melhor estar de bem com deus e com o diabo. Não são os costumes que são brandos, mas a forma como os vivemos e evidenciamos. De certo modo, o que o resultado deste inquérito mostra é que estamos na mesma. À socapa do anonimato revelamos o que de facto nos vai na alma. Por isso, além de perplexo fiquei triste, ou melhor desapontado.
Outro resultado interessante revelado é o de que apenas 0,7% dos inquiridos se coloca na categoria de homossexual, enquanto 3,2 afirmam já ter tido relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, e 5% dizem já ter tido contactos com pessoas do mesmo sexo mas sem envolver a área genital. Se é verdade que este resultado nos indica que a questão identitária é sem dúvida a mais difícil de resolver numa sociedade muito determinada pelo juízo social, como a nossa, também nos confirma o que já tínhamos visto anteriormente, que convivemos com relativa facilidade com ambientes moral e socialmente hipócritas, onde apesar de tudo mais vale sê-lo do que parece-lo.
Gostei imenso de We Own The Night, de James Gray, um filme de uma pureza muito grande, que nunca tem medo ou vergonha de assumir que pretende filmar essa zona sombria onde os sentimentos são a única coisa que nos redime. Trata-se com efeito de um filme sobre uma redenção, a de Bobby, filho e irmão de polícias nova-iorquinos, a quem o desejo de liberdade levou até às margens do crime organizado e que enceta da forma mais dolorosa o caminho até regressar à segurança do lugar onde pertence, sendo que este, muito mais do que um lugar físico, é sobretudo a morada onde estão aqueles que amamos. Mas se esta história é já de si apelativa de um determinado cinema, ou de uma certa maneira de usar o cinema, é no modo como filma, como a câmara se demora, com um misto de contenção e despudor, de distância e excesso, no rosto dos actores e na limpidez das formas. O olhar de Gray parece estar ali a meio caminho entre a secura de um Clint Eastwood e o desvario de um Abel Ferrara. Tudo no filme, das fotografias a preto e branco iniciais à banda sonora, dos adereços aos automóveis, evoca não tanto um tempo e um lugar, mesmo cinematográficos, mas mais uma memória, a memória de um olhar mais puro, que conseguia olhar para as coisas de forma ainda descontaminada por todos os relativismos. E depois os actores. Joaquin Phoenix está lindíssimo, um homem a ganhar peso e sombra, um corpo ainda a clamar vida mas já a acentuar os sinais da morte. E o prazer imenso de rever o grande actor Robert Duvall em mais um papel trabalhado com um rigor e uma segurança raras.
O desastre do Partido Trabalhista nas eleições locais inglesas (e galesas) do passado dia 1 de Maio ainda foi pior do que as piores previsões. Os jornais ingleses falam na maior derrota Labour em 40 anos. Quem diria há apenas dois anos, com um Partido Conservador em sérias dificuldades em acertar com a estratégia, que um resultado destes seria possível? Esta é uma lição que não devem esquecer os partidos que estão no governo com maiorias confortáveis e que pensam que lá porque os partidos da oposição parecem esfrangalhados tudo são favas contadas.
Quanto a Londres venceu, como era previsível, o Boris Johnson, com 42% dos votos. O Red Ken, com 36%, sai de cena com a apesar de tudo consolação de que esta derrota será mais do Labour do que sua. O meu candidato a mayor, o Brian Paddick, dos Liberais-Democratas, teve uns decepcionantes 9%.
Que apesar de tudo a política inglesa não é bem a mesma coisa, mostra-o o modus operandi das noites eleitorais. Como as eleições são nominais, ou seja escolhe-se um candidato em concreto e não um cabeça de lista, todos os candidatos se reúnem no mesmo lugar para ouvirem um speaker anunciar os resultados e proclamar os vitoriosos. Seguem-se os discursos, ali, feitos ‘na cara’ uns dos outros. Parecendo que não, ajuda a elevar o nível, e torna a política um assunto de cavalheiros. Ontem nos discursos o Boris fez o elogio do Ken Livingstone, agradecendo-lhe o facto de ter definido o perfil da figura do mayor da cidade, a sua dedicação à cidade, e a sua liderança quando foram os ataques bombistas de Julho de 2005. Mandou uma alfinetada irónica ao elogiar-lhe o nervo exuberante com que lida com os adversários, especialmente os do New Labour. E terminou o elogio ao seu adversário derrotado afirmando esperar que seja encontrada uma forma de garantir o contributo para o governo da cidade do ‘amor transparente’ de Ken Livingstone por Londres. Percebem a diferença?
Faz hoje um ano que mudei de trabalho. Ou melhor, que mudei de local de trabalho pois o trabalho, ou seja a carreira profissional, continua a mesma. Durante dezasseis anos, entre Fevereiro de 1991 e Abril de 2007 trabalhei sempre na mesma instituição. Ao longo desses anos tive uma série de funções, algumas de muita responsabilidade, outras ainda mais, estive na prateleira, apaguei fogos, em sentido figurado mas também em sentido literal. Conhecia a organização como as palmas das minhas mãos, quase pessoa a pessoa, e eram mais de duas mil e quinhentas. Sentia-me, para o melhor e para o pior, parte da mobília. Apesar de ser uma daquelas pessoas que tem de tomar decisões, e por isso tem de dizer muitas vezes que não, acho que havia relativamente poucas pessoas que não gostavam de mim, e mesmo a maior parte dessas era um pouco por interposta pessoa, não gostavam de mim apenas porque não gostavam de outras pessoas que eram minhas amigas ou com quem eu estava de algum modo relacionado. E havia muitas pessoas, nomeadamente aquelas que tinham funções menos diferenciadas e por isso menor poder de se imporem, que confiavam em mim e sabiam que eu as apoiava e ajudava.
Ao fim de dezasseis anos, aquela era a minha casa e pelo menos até às vésperas de sair (mais ou menos até um mês antes) nunca me passou pela cabeça sair. Até que um dia vi passar à minha porta uma oportunidade, parou um bocadinho, ficou ali a irradiar e eu a olhar para ela, e, ao fim de quatro ou cinco dias a pensar no assunto, percebi que era uma oportunidade demasiado perfeita para não aproveitar. Ouvi a opinião de duas pessoas (ouvi de mais mas essas duas eram as importantes), e que, já agora, não foram coincidentes, e falei com o que seria o meu chefe, e que me incitou a mudar. Entre uma sexta-feira e uma segunda, decidi-me, e mudei-me.
E devo dizer que um ano depois, não só não estou arrependido, como não houve um único momento de arrependimento, e, mais, a minha mudança faz cada vez mais sentido. Ao longo deste ano experimentei a sensação que nunca tinha sentido anteriormente de estarmos novos numa coisa, de olharmos para uma organização com olhos frescos, de irmos conhecendo as pessoas e criando empatias (e naturalmente algumas antipatiazinhas). E sobretudo aprendi novas maneiras de estar na profissão, e readquiri o gosto, que tinha sido perdido nos três ou quatro anos anteriores, de trabalhar em equipa. Tem sido, por tudo isto, uma experiência muito boa. Inclusivamente a nível pessoal, porque me obrigou a confrontar-me com fantasmas antigos, nomeadamente com a doença que tive há mais de vinte anos e que, por força de circunstâncias que não vêem ao caso, voltou a ser um assunto; e até com certos medos e inseguranças, pois não há nada como expormo-nos ao olhar limpo dos outros para pôr à prova a nossa auto-confiança.
Quanto à minha antiga instituição, guardo dela uma mão cheia de amigos, que continuam presentes de modo quase quotidiano, e outra de saudades de algumas pessoas em relação às quais a amizade não resistiu à distância mas de quem guardo muito boas recordações. Tenho saudades de atravessar todos os dias o jardim, que era lindíssimo, e que sempre me animava e me tornava a alma leve e fresca e perfumada. Dificilmente outras coisas na vida terão a faculdade de me inebriar e me despertar os sentidos e a mente (e de me inspirar entradas para o innersmile) como esses passeios quotidianos pelo jardim, ou até mesmo simplesmente o mar verde da copa das árvores entrevisto por alguma janela.
Quanto ao resto, a verdade é que a organização tinha entrado num processo de degradação que ao longo do último ano se acentuou. Aliás, uma das coisas de que tomei consciência depois de ter saído é que a minha saída fez parte desse processo de degradação. Eu conhecia tão bem aquela casa que lhe adivinhei o futuro, e tudo aquilo que eu pensei, e comentei com amigos, que se ia passar, tem de facto acontecido. Desse modo já não me revejo no que aquela instituição é actualmente, e tenho um profundo sentido de perda em relação ao que aquela casa já foi, e ao orgulho que os profissionais sentiam em lá trabalhar. E sinto mesmo um certo desprezo em relação a quem dirige neste momento o seu destino, mesmo em relação às pessoas com quem trabalhei muitas vezes e ao longo de muito tempo, não por me sentir superior a elas, mas porque não tenho rigorosamente nada a ver com a sua maneira de estar nas coisas e com aquilo em que transformaram a que foi a minha casa durante dezasseis anos.
Tenho andado, nestas duas últimas semanas, verdadeiramente deliciado a ouvir Lusitânia Playboys, o mais recente cd dos Dead Combo. Não era um desafio fácil, pois os DC estavam a ficar com um som muito marcado, e muito fechado dentro de si próprio, que corria o risco de enquistar numa fórmula. A proposta foi apontar noutras direcções, juntar colaborações, incorporar mais referências musicais tradicionalmente portuguesas, e acentuar a versão cinematográfica de uma música que já tinha aquele toque de ser feita de bandas sonoras à espera de filmes por fazer. O resultado é festivo, divertido e arriscado, sendo alguns dos maiores riscos, e os mais surpreendentes, os temas que precisamente mais nos entusiasmam. Para falar com franqueza, só acho que há dois pormenores menos conseguidos: um é o das sonoplastias, que, percebo, ajudam a caracterizar ambientes, mas têm de ser usado sempre com muita parcimónia; e o outro é o recurso, em duas ou três faixas, a um certo universo sonoro da banda desenhada, que eu acho que força a nota da referência cinematográfica. Mas nada disto retira valor e sobretudo gozo ao cd. É interessante ver como um projecto que, tanto quanto julgo saber começou quase como uma brincadeira, como um projecto lateral, se tornou tão coerente e produtivo. Na noite de quarta-feira os DC apresentaram um showcase na Fnac de Coimbra que foi interessante (apesar de eu só ter ouvido, era tanta gente que não dava sequer para entrar no espaço do café) porque mostrou como esta proposta de temas mais 'arranjados' se mantém extremamente fiel à essência da música dos DC, e os temas, despidos à formação do duo, são tão bonitos e entusiasmantes como no disco. A edição que eu comprei do cd traz de bónus um dvd com um documentário tipo making of, um concerto no Maxims e vários clips. Não sou grande entusiasta desta moda de os cds trazerem agarrada muito bugiganga que serve só para agitar o marketing, mas reconheço que este conjunto de extras é perfeito e, mais do que uma técnica de vendas, parece mesmo resultar de uma vontade de dar uma prendinha aos fãs da banda.
Na próxima quinta-feira, dia 1 de Maio, há eleições em Londres para escolha do mayor da cidade. Quando comecei a ir a Londres, em 1984, não havia a figura do mayor. Na altura, a estrutura de governo da cidade dividia-se pelos diversos 'councils' que eram as formas de governo dos borroughs (os bairros administrativos de Londres, o meu era o de Camden). E havia o GLC, o Great London Council, que reunia representantes dos councils e que era a autoridade coordenadora da gestão da cidade.
Nessa época, Margarete Thatcher governava a Grã-Bretanha com a proverbial mão de ferro, e o GLC era o único verdadeiro pólo de oposição aos conservadores, sobretudo desde que à sua frente estava o Ken Livingstone, conhecido pelo Red Ken, o que dá uma ideia da ferocidade da oposição. Thatcher, como é óbvio, decidiu resolver o problema à sua maneira, e em 1986 aboliu o GLC, numa das suas medidas mais contestadas. Ainda tenho em casa os crachás a dizer Keep the GLC working for London.
Quando Blair chegou a governo cumpriu uma das suas principais promessas eleitorais, a de restaurar uma autoridade metropolitana na zona de Londres, com a criação da figura do mayor e a reposição de um órgão colegial com funções de coordenação e representatividade. O Partido Trabalhista não escolheu o Red Ken para candidato a mayor nas primeiras eleições de 2000, que se apresentou como candidato independente e infringiu uma derrota expressiva ao candidato oficial do partido, tornando-se o primeiro (e até agora único) mayor de Londres. Nas eleições de 2004, e com receio de nova derrota, o Labour readmitiu Ken Livingstone (tinha sido expulso depois da decisão de concorrer como independente) e apoiou a sua reeleição.
Mais não seja em homenagem aos gloriosos anos de oposição a Thatcher, sempre gostei muito do Ken Livingstone, e fiquei todo contente quando ele ganhou a eleição de 2000. Não porque não gostasse do Tony Blair (acho que foi um dos melhores primeiros-ministros que o Reino Unido conheceu), mas porque o Red Ken era a escolha natural do partido, e só não o foi numa daquelas manobras de baixa política para tentar anular a oposição interna.
Nestas eleições da próxima quinta-feira, o Red Ken é mais uma vez o candidato Labour, contra o conservador o Boris Johnson, e o candidato dos Liberais-Democratas (os Lib-Dems), o Brian Paddick.
Paddick foi até há pouco tempo oficial superior de polícia, numa carreira quase toda feita na Metropolitan Police (uma espécie de PSP londrina), mas com passagens pela Scotland Yard. Na Metropolitan Police destacou-se por ter sido o oficial de patente mais elevada a assumir abertamente a sua homossexualidade. A sua reforma da polícia surgiu no seguimento de um conflito entre Paddick e os seus superiores relacionado com a morte do cidadão brasileiro Jean Charles de Menezes, no seguimento dos ataques bombistas de Julho de 2007. Em entrevistas que concedeu, Paddick deixou subentendido que os seus superiores, nomeadamente Ian Blair, o chefe máximo, souberam que Jean Charles tinha sido morto por engano logo nas horas seguintes ao tiroteio, ou seja muito antes de a polícia ter admitido publicamente o engano. Ora como se sabe, nos países civilizados o pior crime que as autoridades públicas podem cometer é serem apanhadas a mentir (ok, mentir é mau, mas um tipo pode-se safar com uma mentira se não for apanhado), ao contrário do que acontece noutros países em que mentir de certo modo faz parte do MO das pessoas que se dedicam ao serviço público. Seja como for, essa insinuação bem como a afirmação de que Sir Ian Blair se devia ter demitido por responsabilidade política pela morte de Jean Charles, fizerem-no entrar em choque com a hierarquia da polícia, tendo a sua aposentação sido uma das formas de resolver politicamente o problema.
Apesar de não engraçar muito com o Brian Paddick, agrada-me muito a ideia de o mayor de uma das maiores e mais importantes cidades do mundo (e para mais uma que eu amo muito) ser gay, e por isso se eu fosse um londrino na próxima quinta-feira votaria nos Liberal-Democrats, apesar de na política inglesa a minha simpatia ir geralmente para os Labours. Mas desta vez eu teria de concordar com o Boris Johnson que apelidou o Red Ken de Ken Leaving Soon!
Ainda a ler a autobiografia de Tennessee Williams, aproveitei para rever dois dos mais famosos filmes baseados em peças do dramaturgo, Cat on a Hot Tin Roof e Sweet Bird of Youth. Para além das peças de TW, unem estes filmes o facto de serem ambos realizados por Richard Brooks, e terem Paul Newman no protagonista. Cat on a Hot Tin Roof foi um êxito imenso, em parte por causa da dupla electrizante formada por Newman e por Elizabeth Taylor, mas também muito por causa da tensão imensa que percorre todo o filme, uma violência sempre prestes a explodir, e uma beleza triste e insuportável, por ser quase o epítome da mais profunda solidão em que as personagens se encontram, como de resto acontece em (quase) todos os personagens criados por Williams. Sweet Bird of Youth não é, enquanto filme, tão bem conseguido como Cat on a Hot Tin Roof, apesar da gisgantesca presença de Geraldine Page no papel de Alexandra del Lago. Um verdadeiro monstro, como de resto é referido na peça. pela própria personagem, que se devora a si prórpia tanto quanto devora todos aqueles que estão à sua volta. São dois clássicos filmes de Williams, naquele sentido em que muito do que é a essência do teatro de Williams se encontra tão bem plasmado nestes filmes. E isto apesar de acontecer aqui o que aconteceu de forma geral com todas as adaptações cinematográficas das suas peças, e que foi um adoçar dos temas fortes de Williams, que não recuava perante nenhum tema tabu. Sweet Bird é um bom exemplo, ao trocar, no final, a referência à histerectomia de Heavenly por uma gravidez, apesar de tudo mais bem tolerada pelos padrões morais dos anos 50 e 60. Na sua autobiografia Tennessee Williams não faz muitas referências às suas peças (apenas notas sobre as produções e as suas vicissitudes) e ainda menos aos filmes. Mas há duas coisas que são evidentes. A primeira é como as peças reflectem a personalidade depressiva de Williams e a sua capacidade de desafiar as convenções sociais e morais do seu tempo, muito pelo facto de Williams nunca ter negado a sua homossexualidade. A outra coisa evidente é como Williams sempre foi perseguido pelo medo do fracasso e como as suas peças foram muitas vezes mal recebidas pela crítica. E é curioso porque ao vermos estes filmes não conseguimos deixar de sentir uma admiração imensa pelo teatro de Williams, não tanto, ou não apenas, pela escolha dos temas, mas sobretudo pela intensa e profunda humanidade das suas personagens, pela forma como vivem as suas fragilidades, e como são sempre essas fragilidades que as tornam admiráveis e únicas.
Foi retomada a edição da revista Ler, Livros e Leitores, agora mensal, com a edição do número 69 (esse 'curioso número', na ela sim curiosa expressão do igualmente assaz curioso Mota Amaral). Escrevi aqui do enorme desgosto que senti quando a publicação da revista foi suspensa, há pouco mais de 2 anos, e por isso estou naturalmente contente. Claro que não é a mesma revista, tem um tom mais de magazine, o grafismo, sendo bonito, é mais leve (mas menos fascinante) do que o da antiga revista, alargou o espaço da crónica e o leque de cronistas. A antiga ler estava mais a meio caminho entre o magazine e as chamadas revistas literárias, esta nova aposta claramente na informação e no entretenimento. Mas gostei muito, apesar de apenas ainda a ter folheado e lido um ou outro artigo. Tenho pena que o Eduardo Pitta tenha deixado de fazer a recensão das edições de poesia, e também de que a crónica do Onésimo Teotónio Pereira tenha diminuído de tamanho (mas não de humor). Tenho com a ler uma relação muito afectiva. É das poucas publicações (e seguramente a única das mais recentes) que faço colecção, ou seja de que guardo todos os exemplares. Para além de ter aprendido muito a lê-la, proporcionou-me revelações deslumbrantes, e que foram importantes na minha vida, ou pelo menos no meu gosto pela leitura e na minha relação com os livros. Estou a lembrar-me, por exemplo, de uma entrevista que Francisco José Viegas, o actual director, fez com o Rui Knopfli. Os meus votos para esta nova Ler é que dure tanto quanto a outra durou. E que me dê tanto quanto a outra me deu, já agora.
Ontem, já não sei o que andava à procura, fui parar a um ficheiro com entradas muito antigas do innersmile, dos primeiros meses. Nessa altura andava praticamente sozinho, não apenas no livejournal mas na própria blogosfera, havia pouquíssimos blogs em português. Dessa época, e aqui no livejournal, e que ainda andam por aqui, só me estou a lembrar primeiro do Guil e depois do não_vou_por_ai, ou seja, tirando eu só havia brunos. O que eu achei engraçado lendo essas entradas antigas é como o tom do innersmile mudou radicalmente. Nessa altura era de facto um diário on-line, onde eu ia registando basicamente o meu dia-a-dia, embora tentasse resguardar uma certa exposição de aspectos mais íntimos. Mas acho que lendo essas entradas é relativamente fácil perceber, ou pelo menos fazer uma ideia, do que eu era e onde estava nessa altura. Os anos seguintes, 2002 e 2003 foram sobretudo anos de comunidade livejournal, em que se escrevia, acho eu, sobretudo para os amigos, ou seja, para o resto do pessoal que estava no livejournal. Foi um tempo impecável, no qual fiz bons amigos e conheci pessoas muito interessantes, normalmente mais novas que eu, e que me deram a conhecer muitas coisas e perspectivas novas. A partir de 2003 começou o boom dos blogs em Portugal, e começou também a transformação do innsermile. Aos poucos foi deixando de ser um diário, um caderno de apontamentos de coisas mais ou menos irrelevantes, uma maneira de comunicar com os outros, e passou a ser, cada vez mais, um livro de registo. De livros, de filmes, de espectáculos, de viagens. Uma maneira de me obrigar a registar as coisas e a reflectir minimamente sobre elas. Uma espécie de captain’s log, de diário de bordo. Para isso contribuiu, estou certo, o facto de começar a ter consciência de que há mais gente (eu ia escrever muita, mas isso não é verdade) a ler, e naturalmente refrear o aspecto mais pessoal da escrita. Houve, ao longo destes anos, momentos em que a minha vida profissional correu menos bem, e isso dava-me mais disponibilidade, de tempo mas sobretudo de espírito, para pensar e escrever coisas. Desde há uns meses, quase um ano, a minha vida profissional alterou-se, para melhor, e entrei novamente numa fase de muito envolvimento profissional. Tenho uma profissão que pode ser absorvente, e quanto melhor correm as coisas, mais absorvente ela é. Ou seja, a minha disponibilidade para escrever reduziu-se drasticamente. Quanto tenho alguma vontade de escrever, e um pretexto forte, faço um esforço para alinhavar meia dúzia de coisas que tento fazerem sentido. Normalmente escrevo de rajada, aproveitando pequenos intervalos, ou dedicando os serões à escrita. Tudo isto porque estou a passar uma fase em que não me apetece escrever e tenho deixado o innersmile de lado. Aproveitei as notas que escrevi na minha viagem ao Vietname para me renderem umas quantas entradas. Ainda tenho alguns textos que escrevi no blog a_seco para pôr aqui. Mas como não tenho ido muito ao cinema e ando a ler o mesmo livro há semanas, falham-me os pretextos. E não tenho a dose de ócio suficiente para pensar em textos ou em temas que me apeteça desenvolver. Ontem, ao ler as entradas mais antigas tive saudades desses tempos de diário, mas acho que hoje seria completamente incapaz de voltar a fazer o innersmile da mesma maneira. Para mim não faz grande sentido fechar um blog e abrir outro, não mantenho blogs com essa noção de projecto. Basicamente só o quero para ir escrevendo umas coisas quando me apetece. Depois de muitos anos a sentir uma certa compulsão para vir aqui escrever sobre tudo e alguma coisa, gostava de retomar, dos tempos iniciais do innersmile, apenas uma certa noção de inconstância. Não sentir a obrigação de escrever. Libertar-me da mania tola de que há pessoas para quem tenho de escrever. Voltar ao estado de espírito do tempo em que escrevia para mim e punha as coisas on-line, à disposição dos outros, mas sem lhes serem dirigidas. Nem sei mesmo, nesta fase do campeonato, se faz sentido pôr este texto no innersmile. De certa forma precisei de o escrever para pôr ponto final numa mini-crise existencialista por que o innersmile passou. O facto é que basta estar três ou quatro dias sem pôr nada on-line para começar a ganhar uma espécie de distância que me leva a reflectir sobre ele. Era disso que eu me queria libertar.
Ontem fiz uma coisa que não fazia há muito tempo: vinha pela auto-estrada e, depois dos primeiros quilómetros a rolar a uma velocidade mais calma, comecei a acelerar e fiz a maior parte da viagem sempre com o ponteiro do conta-quilómetros a passar dos cento e setenta. Houve uma altura, há muitos anos, em que isso era habitual. Era mais jovem, mais impaciente, tinha mais resistência à fadiga, e sobretudo tinha um carro mais veloz do que o que tenho agora. Sensivelmente a meio caminho reparei que no meio das luzes distantes de uma povoação qualquer brilhava uma estrela azul. Tinha acabado de cair mais uma enxurrada de água, o pára-brisas ainda estava cheio de gotas de chuva, e, com a atenção toda concentrada na estrada à minha frente, sobretudo àquela velocidade, não consegui, a princípio, perceber bem do que se tratava. Parecia-me efectivamente uma estrela. A noite é propícia a devaneios e a acontecimentos extraordinários, e nem sei muito bem qual dos dois me aconteceu, ou mesmo se ambos. Mas à medida que fui avançando, a estrela afinal parecia brilhar, azul e intensa como uma cruz na noite, mesmo no meio da auto-estrada. Abrandei, confuso, a velocidade, e achei estranho não haver outros carros a ultrapassarem-me ou a cruzarem na direcção oposta. Um dia, há já algum tempo, mais ou menos na mesma zona da auto-estrada, atravessei um arco-íris exactamente no ponto onde, junto ao asfalto, ele se começava a formar. Por uma brevíssima fracção de tempo, senti-me embrenhado numa luz diferente, brilhante, como se estivesse no foco iluminado de uma máquina de projectar filmes. Foi uma experiência muito breve, mas tão extraordinária e intensa que ainda hoje sou capaz de imaginar à minha volta essa luz formidável. Lembrei-me deste episódio porque foi quase a mesma coisa que me aconteceu quando me aproximei da luz azul da estrela que brilhava na auto-estrada. Com a diferença de que, ontem à noite, e quando me preparava, quase em êxtase, para mergulhar nessa luz, ela foi-se tornando mais e mais diáfana, de modo que, no momento em que o carro, que seguia já a uma velocidade mínima, muito abaixo do limite de circulação permitido, se preparava para a atravessar, já nada restava do seu brilho, nem sequer o filamento ainda incandescente de uma lâmpada que acabámos de apagar.
Ainda com o sabor árido e amargo das coisas que terminam antes de começarem, fui de novo carregando no acelerador até o carro atingir de novo os cento e setenta quilómetros por hora. Começaram a surgir outros carros, mais lentos, à minha frente, e pares de luzes a cruzar a estrada no sentido oposto. Veio-me à lembrança uma noite em que fui jantar com um grupo de pessoas que não conhecia pessoalmente, de algumas apenas a voz, através de conversas telefónicas. Ganhei, desse jantar de estranhos, a certeza e o conforto de umas quantas amizades para a vida, e a doce frescura de outras tantas que a vida se foi encarregando de dissipar. E assim prossegui viagem, com a tranquila esperança de que há sempre pessoas e sentimentos que se salvam dos destroços, de que, mesmo em noite de borrasca, há sempre curvas inesperadas e insuspeitos encontros no bisonho enlevo de uma auto-estrada nocturna. Com o pé sempre a pressionar o pedal do acelerador, fiz mentalmente as contas de quanto tempo faltava para chegar ao aconchego da minha casa.
[Este conto vai, naturalmente, para o pessoal do Sábado à noite. Cheers]
Bastam-me as cinco pontas de uma estrela E a cor dum navio em movimento E como ave, ficar parada a vê-la E como flor, qualquer odor no vento.
Basta-me a lua ter aqui deixado Um luminoso fio de cabelo Para levar o céu todo enrolado Na discreta ambição do meu novelo.
Só há espigas a crescer comigo Numa seara para passear a pé Esta distância achada pelo trigo Que me dá só o pão daquilo que é.
Deixem ao dia a cama de um domingo Para deitar um lírio que lhe sobre. E a tarde cor-de-rosa de um flamingo Seja o tecto da casa que me cobre
Baste o que o tempo traz na sua anilha Como uma rosa traz Abril no seio. E que o mar dê o fruto duma ilha Onde o Amor por fim tenha recreio.
- Natália Correia, POESIA COMPLETA
Para a Gaby com um imenso beijo de PARABÉNS, e com a certeza de que sempre para ti haverei ilhas e árvores e domingos e espigas e rosas no seio do mês de abril.
No aeroporto de Schipol, a fazer uma escala interminável. Gosto muito deste aeroporto. Porque é bonito, porque tem boas lojas, porque tem muito movimento, e porque me traz boas e importantes recordações. E porque tem um Starbucks, onde assentei e que só tenciono abandonar à hora do embarque.
Ontem, domingo, passámos a tarde em Bangkok a visitar templos budistas. Três: o Buda de ouro, o Buda reclinado e o Buda de mármore. O lugar onde ficava o Buda reclinado era impressionante, um sítio imenso, com muitos templos e outros edifícios religiosos, com uma espécie de cemitério. Muitos visitantes, mas também muitos monges. Uma das coisas que mais gosto nestes templos é, tal como acontece nas mesquitas, termos de nos descalçar. De certo modo, aos descalçarmos os pés, é como se descalçássemos igualmente a racionalidade, procurando um conforto mais natural. Claro, isto é balela new age, de quem está sem nada para fazer num enorme aeroporto internacional a fazer horas para a ligação. Acho que vou ali comprar um cd.
Logo de manhã uma visita à estação central dos correios, da autoria de Gustavo Eiffel, um edifício lindíssimo, que nos faz sonhar com romances de aventuras do século XIX.
Depois fomos para a zona do delta do Mekong. Outro cenário da guerra, mas que neste passeio foi bem mais pacífico e agradável. Atravessámos uma parte do delta, percorremos de carroça um caminha numa das ilhas, vimos fabricar caramelo de coco, provámos doces e frutas da região, e ainda tivemos direito a um passeio de canoa por um dos braços do rio, o mais perto que eu estive da sensação de estar embrenhado no meio da selva. Bebi um chá com mel delicioso.
Há zonas do delta onde não há ligação rodoviária, e por isso o tráfego fluvial é intenso. Tudo se transporta através de todo o tipo de embarcações, desde os ferrys que levavam autocarros de turismo, a todo o tipo de embarcações de trabalho.
Não sei se tornarei a escrever neste caderno. Amanhã cedo vamos para Bangkok, onde passamos a tarde e jantamos, é à noite embarcamos para Amesterdão. Adorei a viagem. A Ásia, o Vietname. Gostei imenso de ter visitado um país onde ainda há tantas marcas de um regime comunista puro e duro, daqueles que ajudaram a formatar o mundo tal como ele era quando o conheci. E gostei deste contraste de Ho Chi Minh City, que hoje é uma das grandes metrópoles do Sudeste Asiático, como outras que eu conheci, Kuala Lumpur ou Singapura. Aliás, 10 ou 15 anos depois do início da liberalização económica, é evidente que esta cidade volta a ser mais Saigão do que propriamente uma cidade cujo nome celebra o pai da pátria comunista. O que não deixa de ser uma ironia cruel e divertida. Adorei as pessoas, que são bonitas, pequenas e ágeis. Adorei as mulheres, sempre com um ar muito trabalhador, mas elegante. E, de um modo geral, as pessoas são simpáticas, mesmo quando em princípio a única coisa que parecem pretender é uma qualquer transacção que lhes proporcione algum ganho. Dólares, em suma. E fiquei fascinado com algumas das paisagens que conheci, nomeadamente com a baía de Halong, que deve ser dos lugares mais bonitos que eu vi. Gostei muito de ter contactado de perto com um país que foi palco de uma das guerras mais sanguinárias e mortíferas do meu tempo, verdadeiro inferno de loucura, e que se tornou numa referência política e cultural para algumas gerações de pessoas, no mundo inteiro. E olhar de perto as cicatrizes ajuda-nos sempre a perceber melhor a loucura e o horror das feridas.
Depois do jantar, regressámos ao hotel e fomos a um dos bares para beber o copo da despedida. Decidi provar o cocktail da casa, chamado Lady of Saigon, com base de vodka e sumos de diversas frutas. Da sua composição à cor e à frescura do sabor, este cocktail pode bem ser o símbolo desta viagem a um país inesquecível.
São quase três centenas de páginas de uma letra miudinha, uma mancha de texto cerrada e em inglês. O que quer dizer que já estou a ler o livro há duas semanas e parece-me que vou continuar mais algumas. Mas tem sido deliciosa a leitura de Memoirs, a autobiografia de Tennessee Williams, o autor de peças de teatro tão conhecidas como Streetcar Named Desire, The Glass Menagerie ou Cat on a Hot Tin Roof. Trata-se, como o título indica, de uma autobiografia escrita ao sabor da memória, seguindo um fio condutor cronológico mas cheia de derivas e dispersões, avanços e recuos no tempo, constantes chamadas à actualidade do escritor enquanto a escrevia. Trata-se, além disso, de um texto que recusa assumidamente a objectividade narrativa, em que predomina o discurso directo, muitas vezes acompanhando a própria corrente de pensamento do autor. Tudo isto torna o livro fascinante, pois o que se perde em objectividade por força de uma memória que é, voluntária e involuntariamente, selectiva, ganha-se numa aproximação, num insert, à alma e ao psiquismo do escritor, às suas emoções e sentimentos, às suas alegrias e aos seus dramas profundos, e sobretudo a um sentido de humor terno e irónico que nunca se poupa a si próprio. E que é escrito no estilo lírico e leve do escritor, num texto de fácil leitura mas com uma profundidade capaz de captar o essencial da alma humana, quer na sua faceta mais prazenteira quer nos abismos mais atormentados. Quando foi publicado pela primeira vez, em 1975, o livro suscitou enorme polémica, sendo alvo de intensa crítica e mesmo reprovação, sobretudo pela crueza e naturalidade com que Williams se refere às suas aventuras amorosas, ele que era um homossexual convicto e bastante praticante. Trinta anos depois, a sociedade já deu muita volta, e, apesar de serem muito interessantes, as façanhas sexuais de TW, creio eu, já não chocarão ninguém. Entre outras coisas, nomeadamente os seus encontros com pessoas célebres, as suas deambulações pelos lugares da sua predilecção (Nova Iorque, Nova Orleans e Key West), e acompanhamento da sua carreira de dramaturgo (de um dos maiores dramaturgos da América), o que mais realça esta autobiografia é o enorme compromisso de Williams com a escrita, uma disciplina obsessiva que o levava a, mesmo depois das noitadas mais extravagantes, levantar-se todos os dias (todos os dias!) cedíssimo, engolir enormes chávenas de café, e passar todas as horas do dia a escrever, alternando a escrita dos textos teatrais com contos, romances e poemas.
Tennessee Williams é um dos maus autores preferidos, e que conheci justamente através de algumas das melhores adaptações para cinema das suas peças mais conhecidas. Aí por princípios dos anos 90, li de uma assentada, em compactas edições inglesas compradas nas edições do FITEI, o essencial das suas peças escritas nos anos 40 e 50. E tive a sorte de ter visto algumas produções de peças de teatro suas, nomeadamente de The Glass Menagerie, por uma companhia de teatro universitário nos Estados Unidos, Sweet Bird of Youth, numa produção do National Theatre, em Londres, e, em Lisboa, com encenação do La Féria, Rosa Tatuada. Uma das coisas que me atraiu nas obras de Williams foi o facto delas terem sempre uma sexualidade muito intensa, muitas vezes de carácter homossexual, mais ou menos implícito, e numa época em que a sexualidade ainda era um tema socialmente incorrecto, quando não mesmo um fortíssimo tabu moral e religioso. A outra, e aquilo que mais me atrai hoje em dia na obra de Tennessee Williams, são as suas personagens de uma fragilidade comovente e quase impossível, animais belíssimos mas irremediavelmente feridos de morte, vidas queimadas por uma solidão cáustica e irreparável.
E pronto, vamos lá a uma entrada intimista (sort of) daquelas que já não há na blogosfera em geral, nem no livejournal em particular. Houve um tempo em que os blogs eram dominados por adolescentes em estado de suspiro, ora de crescimento, ora de angústia, o que é, basicamente, uma redundância. Infelizmente, e como tudo na vida, também isso se perdeu e hoje os blogs foram tomados de assalto por pessoas que só têm coisas inteligentes a dizer. Que saudades do tempo em que no livejournal os meus amiguinhos tinham dezoito aninhos e davam cabo das mãozinhas a enxugar as lágrimas. Hoje são jovens licenciados, engenheiros e cientistas sociais, com namoros estáveis e preocupações ecológicas, que escrevem sobre temas importantes.
De volta ao post pseudo-intimista! Foi ontem, depois de tirar o ticket da máquina e quando acelerava na faixa de entrada para a auto-estrada para ganhar velocidade, que tomei consciência de que sempre que estou apaixonado (a expressão correcta em inglês é infatuated, mas não consigo traduzir satisfatoriamente) me ponho a cantar o famoso tema escrito por Frederick Loewe e Alan Jay Lerner para o musical My Fair Lady, I Could Have Danced All Night. Ainda tentei pôr a tocar o cd da Duffy, sintonizei a estação de rádio M80 para fazer um bocadinho de sing-a-long, mas nada, o meu cérebro (ou o meu coração? adiante…) estava em modo repeat, encalhado nos versos «I only know when he began to dance with me, I could have danced, danced, danced all night». E o facto é que nem chegámos a dançar…
Quando cheguei a casa pus-me à procura da canção no youtube e, claro, encontrei centenas de versões. Estas que se seguem são as que me parecem as mais interessantes. Para vossa comodidade, fica aqui à vista a minha versão preferida, que é obviamente a do filme de George Cuckor com a Audrey Hepburn no papel da Eliza Doolittle, apesar da voz ser da Marni Nixon, uma das cantoras de substituição de serviço nos musicais dos anos 60. Depois seguem-se mais dez versões. A primeira pela voz original de Eliza, a Julie Andrews, que criou a personagem no musical da Broadway. Depois seguem-se 4 versões do bloco das sopranos: Angela Gheorguiu, Birgit Nilsson, Kiri Te Kanawa e Audra McDonald. A seguir uma versão fantástica da Josephine Baker (deus abençoe o youtube) e outra da Shirley Bassey (se eu tivesse o corpo e o talento para isso, havia de ir ao Finalmente fazer um boneco da La Bassey). Finalmente 3 versões da rapaziada: o Frank Sinatra e o Nat King Cole, ambos com imagens editadas, e uma versão ao vivo do menino inglês do jazz Jamie Cullum, que gravou a canção no seu primeiro cd. Para que possam também cantar a canção da próxima vez que estiverem inebriados com os fumos da paixão, ainda fica aí a letra para o karaoke.
«I could have danced all night! I could have danced all night! And still have begged for more. I could have spread my wings And done a thousand things I've never done before. I'll never know what made it so exciting; Why all at once my heart took flight. I only know when he began to dance with me I could have danced, danced, danced all night!»
Logo de manhã fomos a Cu Chi, uma aldeia a uns 50 quilómetros de HCMC onde há um sistema de túneis usado pelos vietcongs durante a guerra. Todo o propósito da visita é enaltecer a engenhosidade e a simplicidade dos guerrilheiros vietnamitas, na sua luta contra o invasor brutal, bem como das populações locais, que conseguiam auxiliar os guerrilheiros sem se exporem às tropas norte-americanas.
À tarde fomos visitar o palácio da reunificação, que começou por ser a residência do governador francês e depois se tornou a residência oficial dos presidentes da república do Vietname do Sul. Foi destruído num ataque aéreo em 1962, e reconstruído. Para a história fica ainda o facto de ter sido deste palácio que o último presidente do país fugiu, em Abril de 1975, a bordo de um helicóptero que aterrou no telhado, bem como uma das fotografias mais iconográficas do conflito, a de um tanque dos guerrilheiros do norte a derrubar os portões do palácio. Destaco o estilo modernista das colunatas que, sobretudo vistas do interior para o exterior, criam uma luz velada e fresca, algumas peças de mobiliário, e principalmente o bu