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[icon] um voo cego a nada
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Subject:direito de reposta
Time:01:47 pm
O innersmile errou! Ah, há tanto tempo eu tinha vontade de escrever esta frase. A equipa da Com'Out deixou o seguinte comentário ao texto que eu pus aqui há dias sobre o lançamento do primeiro número da nova revista portuguesa dedicada aos temas LGBT:

«Bom dia,
Para os mais curiosos, e para que a informação seja correcta, dos artigos publicados na Com'Out apenas um é de agência. Os restantes foram feitos pela redacção e por colaboradores. Aceitamos todas as críticas de forma a melhorar as edições seguintes, mas já agora fica reposta a verdade. Obrigado a todos.
A equipa da Com'Out»


Fica assim salvaguardada a dignidade dos factos. E os votos de que a Com'Out se consiga afirmar, e que seja sempre cada vez melhor.


Aproveito o ensejo (outra...) para chamar a atenção para um texto que Eduardo Pitta publicou no seu blog (e no Ipsílon do Público) sobre o livro Os Dias do Fim, de Ricardo Saavedra, e de que falei aqui no innersmile há uns dias.
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Time:12:47 pm
Fazem hoje anos de casados. Cinquenta e quatro. É uma ocasião bonita e comovente, mas não é muito alegre. As transformações mais temidas e irreversíveis parecem estar em marcha. E ainda que sejam inevitáveis, são na mesma assustadoras. Estou sempre a repetir para mim próprio que o importante é aproveitar enquanto há, carpe diem e essas coisas, mas não consigo deixar de ter muito medo. Medo do sofrimento, da angústia, da impotência. E medo também de que a única saída para a dor seja a solidão.
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Subject:caetano em aveiro
Time:08:44 am
Que delícia o concerto de Caetano Veloso ontem na Praça Marquês de Pombal, em Aveiro. A noite estava no ponto adequado, a praça rectangular e bonita, cheia mas sem abarrotar, o som competente.
Caetano sozinho em palco com o seu violão, durante perto de duas horas, a desfiar canções e tesouros. Descontraído e bem disposto, a ceder naquelas canções incontornáveis para o público, e a entreter-se com as mais recentes, com uma inédita, e com as canções dos outros, das mais esperadas às mais surpreendentes. Por exemplo, a cantar La Mer, a primeira vez que o ouço a cantar em francês. Caetano abrandou um pouco o ritmo de cançoneta de Charles Trenet, e deu-lhe mais lirismo e melancolia. No fim da canção, disse que gostaria de a cantar de novo e repetiu-a. Noutro momento, cantou uma canção dedicada à Baía e no fim esclareceu que a canção não era da autoria dele mas de Ary Barroso e, para ilustrar a grandeza do compositor tocou e cantou pequeninos trechos dos clássicos absolutos Brasil e Baixa do Sapateiro.
Um momento inesperado foi quando, já depois de cantar Menino do Rio, Caetano afirmou que tinha gostado muito da palavra ‘ria’, por ser feminino, e que a ideia de fazer uma canção sobre ‘a menina da ria’ era irrecusável e ficava desde já prometida. E o inesperado da coisa é que foi tão espontâneo que fiquei convencido que a ideia lhe tinha passado naquele mesmo momento pela cabeça.
Cantou algumas das minhas canções preferidas, como Sampa, mas para mim o momento mais alto do concerto foi a interpretação de Terra, que é uma canção fabulosa, que Caetano cantou de forma extremamente doce, mesmo quando sacava precursões do violão, e com a ajuda do público no refrão. Outro momento particularmente bonito foi a versão do fado Confesso, que Caetano começa em ritmo de samba e termina em tom de fado, e que sendo um dos meus fados preferidos, na voz e na interpretação de Caetano fica ainda mais bonito e emotivo.
Apenas no encore surgiram duas canções de Cê, e mesmo assim em versão abreviada, mas que soaram muito bem na transposição para o violão.
Em suma, e apesar de eu já ter assistido incontáveis vezes a shows do Caetano, este foi mesmo muito especial e seguramente inesquecível.
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Subject:a barragem
Time:09:13 am
A BARRAGEM

Onde é que um homem pode guardar os seus segredos? Vejo-a na manhã mais fria, coberta de neblina, como se fosse um espelho em chamas, chamando os mortos. É funda como a alma, e é por isso que cabem lá todos os segredos. Muitas vezes me sento numa das escarpas de terra, coisa que ficou das obras, antigamente, e hoje é como se a natureza, a própria barragem, tivesse adoptado essa geografia desfigurada. Ali fico muitas horas, olhando a água como se fosse aço, e pensando em todos os segredos que estão afundados no bojo escuro e lamacento. Há sonhos, concerteza, brincadeiras de rapazes, promessas das raparigas, um carro que se despistou quando alguém fugia, e armas, muitas, que é fácil parar lá em cima, na ponte, e atirá-las à agua embrulhadas em panos atados com um baraço. Nessas horas longas em que, parado, olho a superfície das águas, vêm-me à lembrança os segredos que eu trago sempre comigo, no bolso de dentro do peito, a pesarem-me na nuca, a estrangularem-me a garganta. Penso como seria fácil metê-los na mala do carro, fazê-lo descer pelo caminho de terra batida, e guardá-los aqui neste cofre de ferro, escondidos pelo enganador reflexo da água.
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Subject:com'out
Time:10:58 pm
Hoje ao fim da tarde, ao espreitar displicente para um escaparate de revistas, pareceu-me ver uma Out nova. Quando peguei na revista para a folhear percebi, mais com visão periférica do que com a atenção devida, que a capa estava escrita em português. Pensei que fosse uma edição brasileira, topei que era a edição n.1, e só depois é que percebi que era uma edição portuguesa! Ou seja, aparentemente há uma revista nova, publicada em Portugal, dedicada à comunidade LGBT. Claro que a trouxe.
Não consegui perceber se há alguma relação entre a revista e a Out americana, pelo menos não encontrei nenhuma referência. A revista chama-se Com’Out, mas a palavra em destaque é mesmo o ‘out’, e numa letra parecida com a da conhecida revista americana.
O estilo é o mesmo da Out, tipo magazine, parecendo-me (ainda não a li com atenção) que a maior parte dos artigos serão traduções de artigos de agência ou comprados de outras revistas, até porque tem um corpo redactorial mínimo. Tal como as fotografias, há muito poucos trabalhos originais. Na ficha técnica há dois ou três nomes conhecidos (entre eles o de Miguel Vale de Almeida, que tem uma coluna de opinião), mas apenas na parte dos colaboradores. A revista está dividida em secções distintas (novidades, agenda cultural, sociedade, estilos de vida, enfim o costume neste tipo de revistas), e tem boa, embora pouca, publicidade.
Passando brevemente os olhos pelo índice, tem artigos sobre o Guilherme de Melo e a Solange (que é apresentadora do Curto Circuito, na Sic-Radical), sobre a comunidade gay em Angola, uma reportagem fotográfica sobre o Pride em Lisboa, sobre a Ilga, sobre a internet gay portuguesa, entre muitíssimos outros (contando com as capas, são 100 páginas, a um preço de capa de €4,50).
Fiquei na dúvida se se trata de um projecto consequente, com pernas para andar, tal como não tenho bem a certeza se terá viabilidade comercial. Mas seja como for pareceu-me a melhor tentativa que alguma vez se fez de editar em Portugal um magazine moderno, bonito, com interesse q.b., e capaz de ser ligeiro com uma pontinha de seriedade. A ver vamos, como diz o cego.
A imagem da revista que consegui arranjar foi de um post com data de ontem do blog de Miguel Vale de Almeida. No endereço de site indicado na ficha técnica (www.com-out.pt) não acontece nada.

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Subject:asha em porto covo
Time:11:15 pm


Esta foto da Asha Bhosle foi tirada pelo meu amigo Mário Pires (e espero que ele não se importe de eu a pôr aqui sem autorização prévia), que é o fotógrafo do Festival Músicas do Mundo, durante o concerto que a diva das filmi sangeet deu ontem à noite em Porto Covo.
A foto está lindíssima (o sari é fabuloso), faz apetecer dar beijinhos na Asha, ouvir o seu coração, mergulhar nos seus segredos, nos mistérios das mil personagens que vivem na sua voz.

Eu adoro a Asha e só de ver as fotos fico cheio de inveja, ou melhor, fico até com brotoeja de tanta inveja (ou então é mesmo das melgas que entram pela janela aberta). Como já tenho falado muitas vezes da Asha aqui no innersmile, não vale a pena chover no molhado, mesmo tendo em consideração que já não falta muito para começar o tempo das monções. Se alguém tiver curiosidade, escrevo sobre a Asha (e sobre a sua didi, a Lata Mangeshkar), nomeadamente sobre um disco fabuloso que o Kronos Quartet gravou com ela, em textos que estão nestes links: 1, 2, 3, e 4.

Claro que vale a pena espreitar as belíssimas fotos que o Mário tem feito no FMM. As do concerto da Asha estão neste link, e depois é só seguir os links para os restantes sets.

Para abrir o apetite, aí fica um clip de um dos temas mais conhecidos da Asha, Dum Maro Dum, que de certeza que ela cantou no concerto de ontem. Ok, não é a versão que ela gravou com o Kronos, mas dá para sossegar o desgosto de não a ter ouvido ao vivo.



A canção é, inevitavelmente, de um filme, Hare Rama Hare Krishna, de 1971, e o compositor é R. D. Burman, que foi um dos maiores escritores de canções para Bollywood, e que foi marido da Asha.
E se alguém quiser fazer o karaoke, aqui fica a letra (o letrista de serviço foi Anand Bakshi). Prometo traduzi-la num dia em que tenha mais disponibilidade. Ou não, claro.

dam maaro dam mit jaaye gam
bolo subah shaam hare kariashnaa, hare raam

duniyaa ne hum ko diyaa kyaa ?
duniyaa se hum ne liyaa kyaa ?
hum sab kee pawraa kare kyon ?
sab ne humaaraa kiyaa kyaa ?

chaahe jiyenge, marenge
hum naa kisee se darenge
hum ko naa roke jamaanaa
jo chaahenge hum karenge




[Bem, esta entrada tem tanta tecnologia! Caraças, estou para aí há uma hora a pôr links e a fazer copy paste e outras operações igualmente delicadas e complexas. Que falta de pachorra, não há nada como aqueles textozinhos lisinhos, sem bonecada a atrapalhar.]
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Subject:piquenique
Time:09:25 pm
DE TARDE

Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela;
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!



Não terá sido exactamente assim (em vez de melão foi melancia), mas foi tão belo e divertido. Por isso o poema do Cesário vai naturalmente dedicado aos amigos do piquenique, com um agradecimento especial aos que tiveram a belíssima ideia e a imensa trabalheira de o organizar.
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Subject:os dias do fim
Time:01:07 am

Talvez ainda volte aqui ao livro, mas para já uma notazinha para registar que estou a ler (vou para aí a um terço) Os Dias do Fim, de Ricardo Saavedra, um registo dia a dia dos meses que mediaram entre o 25 de Abril e o 7 de Setembro de 1974, tal como foram vividos em Moçambique, sobretudo na sua capital, Lourenço Marques.
O livro está a provocar-me sentimentos opostos, e o melhor é tirar já do caminho os negativos: a perspectiva do livro é a do Portugal colonial, a do 24 de Abril, assumindo uma postura assumida e algumas vezes agressivamente critica do regime saído da revolução. Ou seja, é um livro reaccionário até à quinta casa. Se esta posição crítica não deixa dúvidas, por outro lado o livro já tem alguma dificuldade (pelo menos até ao momento da leitura em que me encontro) em assumir com clareza a solução que defendia: a manutenção da situação colonial ou a chamada independência branca, à moda da Rodésia.
Agora, independentemente disto a verdade é que a leitura do livro me está a entusiasmar, e a vários níveis. Desde logo pelo tema, a história recente de Moçambique e do Portugal colonial, que é um tema que me interessa. O livro traça um retrato fascinante do que era o quotidiano da vida moçambicana, sobretudo lourenço-marquina, no momento em que se deu a revolução em Portugal. Há, por outro lado, um evidente interesse histórico. O livro traz-nos uma perspectiva que, mesmo que discordemos dela, não deixa de ser válida e, como se sabe, partilhada por muita gente. O manancial de informação é imenso e, independentemente de termos em relação a ele uma postura crítica, tem inegável interesse documental.
Por fim, o livro é interessante enquanto obra literária. Nomeadamente pelo tamanho do desafio a que se propõe: contar, utilizando um registo ficcional mas que está sempre sintonizado com a realidade histórica, o quotidiano de um tempo como não haverá outro, tal a riqueza e a dimensão das transformações que se estavam a operar e os seus efeitos na vida de milhares, ou milhões, de pessoas, e na geografia política do mundo. Neste aspecto, o livro filia-se assumidamente na corrente literária ensaio ficcionado cujo paradigma é In Cold Blood, de Truman Capote.
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Subject:as árvores
Time:11:16 pm
Cada ano, as árvores no passeio fronteiro à esplanada estão maiores. As copas mais frondosas, já fazem sombra. Lembro-me, há dois ou três verões, destas árvores serem fininhas e despidas, frágeis como tudo o que é novo e vem para a vida. Agora, quando as olho aqui do plano baixo da minha cadeira na esplanada (os cubos de gelo tilintando no vidro fino do copo) vejo-as orgulhosas, a ganhar corpo. À espera da manhã, do sol. Contando as estações e os dias, árvores de um tempo quando eu for velho.
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Subject:estação seca . 17/25
Time:03:13 pm
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Ardem-te as veias, da serenidade com que afivelas a máscara sorridente durante as horas em que te expões no mercado dos escravos. Os olhos fogem-te por cima da janela, voas ao redor das copas amenas das árvores, e o céu azul tão iluminado é um vento fresco e leve que despenteia o teu dia sombrio, mas sabes que tudo isso são momentos frágeis como grãos de areia fina, que escapam ligeiros por entre os dedos do teu desespero. De resto, ofereces o teu corpo às mandíbulas assanhadas dos algozes, e até já te embalas com o golfar marulhante dos teus despojos. Porque desistes a cada dia? Que pavor te prende ao fundo e te arrasta, lenta mas vorazmente, para a doce acidez do infinito desamparo que te espera depois das horas? Porque não largas a máscara e te ajoelhas, louvando o fim das grilhetas? Ao invés, prossegues sorrindo para os rostos vazios e desfigurados que te surgem na moldura da porta. Apertas com os dedos o golpe rasgado e deixas-te ir, embrutecido pela cantilena do tráfego, clamando hosanas, lá fora, na rua.
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Subject:para sempre, enigmático, ficaste
Time:10:22 pm


A SÓS COM GANIMEDES

O sábio Freud não quis saber de ti
para nada. Todavia, tu serias

- muito mais do que Édipo, tão falado –
quem teria podida dar-lhe a chave

da porta que ele em vão tentou abrir.
A um canto, na sombra, como mito

rejeitado e por psicanalisar
para sempre, enigmático, ficaste.

Talvez um outro – menos distraído -
contigo venha a conversar por fim.


- José António Almeida, A MÃE DE TODAS AS HISTÓRIAS
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Subject:patricia highsmith, the tremor of forgery
Time:10:53 am
Terminei na segunda-feira a leitura do livro da Patricia Highsmith, The Tremor of Forgery, que tinha começado a ler na última noite de férias, que passei em São Pedro de Moel. Apesar de o livro ser pequeno e de a escrita da Highsmith ser não só fácil como viciante, foram-se metendo outras coisas pelo meio e demorei uns dias até lhe pegar de novo.

O livro é uma delicia, acho que foi das coisas da PH que mais gozo me deu a ler. Apesar de o livro não ter um plot muito complicado, aliás é até nesse aspecto relativamente pobre. Um escritor norte-americano chega à Tunísia para escrever o argumento de um filme para um realizador e produtor, que o contratou e que é suposto juntar-se-lhe ao fim de alguns dias. O tempo vai passando, e as primeiras semanas decorrem sem que o escritor tenha quaisquer notícias do realizador ou da sua própria namorada. Quando as notícias finalmente chegam fica a saber que o realizador se tinha suicidado no seu (dele, escritor) apartamento por estar apaixonado pela sua (dele, escritor) namorada! Quando sabe destas notícias o escritor em vez de regressar aos Estados Unidos, decide ficar na Tunísia, em Hammammed, uma estância de férias, a trabalhar na escrito do seu novo livro. Entretanto estabelece amizade com um compatriota que faz misteriosas e empolgadas transmissões de rádio para os países da cortina de ferro (estamos em plena guerra fria) e com um dinamarquês, pintor e homossexual, que vive num prédio em pleno bairro árabe, e não nos ocidentalizados hotéis, e a quem acabaram de roubar o cão. A opinião do escritor e dos seus amigos acerca dos habitantes locais não é a melhor, e só piora quando uma noite alguém tenta entrar no bengalow do escritor para roubar. Acordado, e sem perceber quem era o intruso mas parecendo reconhecer o formato de um turbante, o escritor atira-lhe com a máquina de escrever, sente o outro a cair para trás, com um grito, e corre a fechar a porta. Passados uns momentos sente o barulho do corpo a ser arrastado, mas no dia seguinte esta tudo calmo, ninguém sabe de nada e os rapazes árabes empregados do hotel negam sempre que se tenha passado qualquer coisa durante a noite.

E pronto, a partir deste momento, que é sensivelmente a meio do livro, não acontece mais nada de muito relevante em termos de acção, e o resto do livro é um exercício brilhante sobre a moral e a culpa. Mas apesar de parecer que não acontece nada, cada peripécia, mesmo as coisas que parecem ser um pouco marginais em relação à acção principal (como a trama do livro que o escritor está a escrever, ou o homem que aparece morto na rua, à noite, ou o regresso do cão do pintor), têm um valor certo e determinado na narrativa, sobretudo no quadro de referências morais e comportamentais que serve de confronto ao escritor e às suas dúvidas e reflexões.

Particularmante rico, e constituindo o cerne do livro, é a questão moral. Não sabendo ao certo se matou o árabe que tentou entrar no seu quarto, o escritor debate-se com o imperativo moral de saber se é relevante ou não a possibilidade de efectivamente ele ter morto, ainda que inadvertidamente, e mesmo tratando-se de um vulgar ladrão cujo desaparecimento não parece incomodar ninguém, e se deve fazer alguma coisa em relação a isso, a começar por assumir que de facto aconteceu alguma coisa nessa noite. Cada um dos co-protagonistas, o compatriota, o pintor e a namorada que acaba por o vir visitar, representa uma posição diferente em relação ao seu debate moral interior, mas subsiste sempre a dúvida essencial: a moral existe de per si, com um valor absoltuto que é reconhecido por todos, ou é antes uma referência relativa que só faz sentido quando é reconhecida como tal pelos outros.

A moral sempre foi um dos temas predilectos de Patricia Highsmith, como tão bem exemplificam os romances da série Ripley, o seu mais fascinante e conseguido personagem. Mas a genialidade da escritora reside no facto de conseguir fazer esse debate (que, suponho eu, a deveria interessar muito pessoalmente, por questões que tinham a ver com a sua sexualidade) sem qualquer doutrina, sem exposição teórica, mas apenas com a trama dos romances e com um domínio exemplar, e férreo, da narrativa. E, é claro, com uma linguagem simples e clara, mas com uma enorme capacidade de sugestão, que seduz e arrasta o leitor através de uma viagem ágil e leve mas que mergulha sempre no mais fundo e no mais escuro.
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Subject:the darjeeling limited
Time:11:08 am
Vi finalmente, em dvd, o mais recente filme de Wes Anderson, The Darjeeling Limited. Não sei bem o que me agrada mais no cinema de Anderson, e me faz apaixonar por cada um dos seus filmes: o ambiente onírico, o irrealismo da narrativa, o esplendor visual, o humor seco, a proliferação de pormenores que passam despercebidos, a saturação do plano, a desorientação melancólica dos personagens, a família como lugar da angústia mas também da redenção, o gosto pelo exótico.

Entre admiradores e detractores, este mais recente filme de Anderson foi encarado como um regresso ao sucesso depois do fracasso de The Life Aquatic mas ainda longe do brilhantiso dos dois filmes anteriores de Wes Anderson, Rushmore e The Royal Tenenbaums . Tenho dificuldade em acompanhar esse raciocínio basicamente porque adorei o The Life Aquatic. O que concedo é que de algum modo este The Darjeeling Limited me parece um pouco prisioneiro de uma certa marca 'anderson', sobretudo ao nível do argumento, e que se calhar Anderson beneficiaria em filmar argumentos alheios.

A verdade é que o cinema de Wes Anderson é muito autoral, e esse é, aliás, outro dos seus encantos, a impressão de que quase tudo é feito de um modo artesanal, em que os filmes são construídos peça a peça, o que confere ao realizador um enorme controlo sobre o filme. Neste aspecto vale a pena espreitar a featurette que acompanha o dvd, e onde se mostram imagens da rodagem do filme, com a procura das melhores soluções técnicas para responder a um determinado desafio narrativo, mas onde igualmente se observa o cuidado e o trabalho posto na construção dos sets, nomeadamente no comboio onde se passa muita da acção do filme e que lhe dá título.
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Subject:são pedro de moel, 3
Time:11:03 pm
4.7.08 (na verdade, já 5.7)

São quatro da manhã da última noite de férias em São Pedro de Moel. Daqui a pouco é manhã e regressamos a casa. Dormi das onze às duas e meia e tenho estado a ler (comecei um livro da Patricia Highsmith). Há pouco levantei-me e fui abrir a janela, para ouvir o mar. O mar e o sossego silencioso das ruas a esta hora. De súbito, do passadiço de madeira que corre as arribas e que termina aqui no largo fronteiro ao hotel, saem a correr, em passo de jogging, duas figuras, um rapaz e uma rapariga, ela com o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo que saltita ao ritmo da corrida.

O jantar foi no Brisa Mar. O ano passado já tinha gostado muito do restaurante, tinha comido Arroz do Mar, e este ano a coisa repetiu-se desta vez com Arroz de Polvo e com Robalo à Marinheiro. Quando nos trouxe a ementa, o jovem que serve às mesas, e que suponho seja dono ou filho do dono do restaurante, disse que nos estava a reconhecer, que tínhamos estado no restaurante há um ano, e até se lembrava em que mesa tínhamos ficado.
Ontem jantámos no hotel, que é o jantar com o mais deslumbrante pôr-do-sol que se possa imaginar, mesmo em frente às rasgadas janelas do restaurante. Na realidade nem são bem janelas, é uma enorme parede em vidro toda aberta a ocidente, mesmo por cima do mar.
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Subject:inventário
Time:06:43 pm

Já Cá Não Está Quem Falou é uma colectânea de crónicas publicadas em jornal por Alexandre O'Neill ao longo de várias décadas. Dada a natureza da recolha, o livro é naturalmente desigual, mas a capacidade de O'Neill de brincar com a linguagem, o seu sentido de humor, e um sentido de observação sempre muito acutilante, tornam-no, como sempre acontece com as obras do escritor, indispensável. De resto, o proverbial sentido de humor, contaminado por uma ironia tão corrosiva que por vezes toca a crueldade, começa no próprio título do livro. Segundo li, trata-se de um título encontrado nos escritos de O'Neill precisamente para um possível livro póstumo.


A Mãe de Todas as Histórias é o título do mais recente livro de poemas de António José Almeida, de quem eu já conhecia o anterior O Rei de Sodoma. Há uma nota importante que tem a ver com o facto de uma parte substancial desta poesia ter um carácter assumidamente homossexual, muitas vezes mesmo homo-erótico. Muitos dos poemas de AJA como que procuram os sinais, ou as marcas, ou mesmo apenas a possibilidade, de uma poética da vivência homossexual, quer no aspecto afectivo e da relação amorosa, quer no contexto do tráfego erótico. Quanto a este mais recente livro, a história a que o título se refere é a de Adão e Eva, e muito do universo desta poesia vive de uma certa busca em procurar os lugares da actualidade, do quotidiano, onde se possa inscrever o misticismo do cristianismo.

OS SODOMITAS

Em itálico grafados
noutras palavras mais duras,
com mofa são observados
de viés por essas ruas.

Como hienas na pintura
de bestiários passados,
em velhas lendas perduram
os varões assinalados.



E já que estou com a mão na massa aproveito para registar aqui o cd que tem andado a rodar no meu carro, e que se chama New Dawn, Ku Khata, do músico moçambicano, radicado na Holanda, Neco Novellas (tem página no MySpace). O grande mérito deste disco é também a sua maior fragilidade, nomeadamente a sua vontade de mantendo embora firmes as ruas raízes étnicas, misturá-las e mesmo dilui-las com outros sons, nomeadamente com o jazz, o samba, o reggae ou mesmo o pop-rock anglo-saxónico, quer na sua vertente americana quer na sul-africana. Esta vontade de misturar deixa por vezes demasiado à mostra as influências de NN, e algumas faixas não chegam sequer a descolar dos seus modelos. Por isso, mais do que um resultado satisfatório, este cd é sobretudo uma bela promessa do que ainda pode vir a fazer um músico muito talentoso, quer como intérprete quer como compositor, oriundo de uma família de tradições musicais e com uma experiência grande e muito variada.
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Subject:sigo-te nas sombras
Time:01:25 pm

Fotografia do Mário Pires


Sigo-te nas sombras
no desvario dos degraus, na cinza leve da pedra
que esvoaça em promessas de ondas à minha frente

Sigo-te na distância do ferro
nas cicatrizes negras do fogo
na surda reverberação da memória

Sigo-te nas sementes secas de uma estação passada
os esqueletos do vento

Sigo-te, por fim, no rumor dos passos ausentes
na sombra esvoaçante e fugidia de quem busca refúgio
da inclemência, dos remanescentes destroços da noite

Sigo o que já passou
aérea e excruciante marca da tua ausência
a encharcar a secura das lages, dos passeios
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Subject:rainha santa
Time:10:16 pm
Realizam-se de dois em dois anos, e como este é ano par há festas da rainha santa. O lado pagão das festas é muito pouco interessante: feira popular, feira comercial e industrial. O programa cultural costuma ser paupérrimo, já que a noção de cultura de quem manda em Coimbra se reduz a grupos folclóricos e a nomes de ruas. Este ano, vá lá, já houve o concerto dos GNR+GNR e o da fadista Marisa (não fui a nenhum, o dos GNR porque não estava cá, e a da fadista Marisa porque não é my cup of tea), e anunciam-se concertos da Rosa Passos e dos Couple Coffee.
Mas bastava a procissão da noite, da penitência, sobretudo o momento da chegada da imagem à Portagem, para tornar as festas da Rainha Santa numa coisa imperdível. Este ano a procissão é na próxima quinta-feira, dia 10, e eu quero ver se venço a preguiça e vou ver. Ok, não sou coimbrinha fanático e é verdade que não conheço assim tantas procissões, mas tenho para mim que não deve haver muitas outras tão emocionantes como esta nocturna da Rainha Santa Isabel.

Mas a razão porque me lembrei de fazer esta entrada sobre as festas da Rainha Santa tem sobretudo a ver com o cartaz das festas. Normalmente não tem interesse nenhum, mas este ano acho o cartaz muito bonito. Todo ele: a cor, o padrão com as rosas, o rosto da santa, o manto a transformar-se em rio. Não sei quem fez, mas é o cartaz mais bonito de que me lembro.
Só encontrei este exemplar na net, mas junto também uma foto que tirei a um mupi já com a ideia de a pôr aqui.



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Time:10:03 am
Quando abriu o jardim zoológico de Sagres, o primeiro animal a ocupar o seu lugar foi o elefante dom henrique.
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Subject:são pedro de moel, 2
Time:10:21 pm
2.7.08
Hoje foi um dia excitante na praia de São Pedro de Moel. Mal chegámos à praia, e porque o nosso toldo é logo na primeira fila, a Natália veio avisar para estarmos preparados porque o mar ia subir muito, ia chegar 'cá cima'. E ainda não era meio-dia a maré começou a encher e a trepar pelo areal acima. Foi um ver se te avias de trabalho todo o dia para os banheiros e para os nadadores-salvadores. Às três da tarde, na praia-mar, as ondas espalhavam-se por toda a zona dos toldos e tocavam a esplanada. Claro que entretanto já tinha sido a debandada, mas nós ficámos na praia, ao pé de uma barraca, a apreciar o panorama. E foi verdadeiramente emocionante ver uma maré tão viva, ondas enormes a desabarem mesmo em cima da praia e a estenderem-se por todo o areal.
Às três e meia o sol rompeu (até aí tinha estado um dia cinzento e nevoeirento, como é tão típico aqui em São Pedro), a maré começou a vazar devagarinho, e a praia encheu-se de adolescentes. Às seis, sete da tarde, visto daqui de cima do hotel, já era o mar habitual aqui em São Pedro, sobretudo em maré baixa, com as ondas a rebentarem lá à frente e a arrastarem-se em espuma até à areia.
A Natália explicou que até aqui tem estado sempre mar de Inverno, e que agora, depois desta maré viva, é que vai chegar o mar de Verão.

Jantei no restaurante A Concha, amêijoas à Bulhão Pato e Lagarada de Polvo, e foi a melhor refeição até agora. O almoço com Arroz de Tamboril no dia da chegada, no Pai dos Frangos, na Praia Velha, também foi excelente. Também já fui jantar ao Estrela do Mar, e pela primeira vez desde que lá vou não gostei muito, e à Fonte, que dentro do género snack passa.
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Subject:leituras de férias
Time:05:11 pm

Vinha já com Califórnia, de Eduardo Mendicutti (edição da Bico de Pena), praticamente lido, faltavam-me vinte ou trinta páginas para terminar. Um romance total e assumidamente gay, com uma primeira parte passada em Los Angeles, em meados dos anos 70, em que um jovem espanhol mergulha na vida de hedonismo no coração de Hollywood enquanto em Espanha se espera que Franco morra. Na segunda, trinta anos depois, esse jovem é um executivo no escritório madrileno de uma multinacional. Apesar dos envios permanentes da narrativa actual para a passada nos anos 70, a verdade é que entre as duas partes não há grande relação, servindo ambas sobretudo para traçar dois tipos bem diferentes de vivência da homossexualidade e dos seus problemas e de uma certa cultura gay. Digamos que do confronto das duas agendas, a dos anos 70 e a actual, que toma como referência o bairro da Chueca, esta parece mais consistente e interessante, mas a dos anos 70 soa bem mais divertida e transgressora.
É o segundo livro de Mendicutti que a Bico de Pena edita na sua colecção dedicada à temática homossexual; antes já tinha publicado Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy, que eu não li.


Depois li O Fim das Miragens, Um Crime no Jet-Set, da autoria do jornalista Paulo Moura, grande repórter do jornal Público. O livro relata, em estilo de reportagem alargada, um crime praticado, ou melhor mandado praticar, por uma mulher do jet-set lisboeta que decide que o assassinato do marido de quem está na eminência de se divorciar, é a melhor maneira de resolver uma crise de liquidez financeira. Gostei muito do tom do livro, que nunca resvala para o estilo sensacionalista que o tema podia puxar, mas que também nunca adopta um tom moralista, embora acabando por fazer um retrato impiedoso de um certo Portugal, arrivista, de celebridade fácil, de dinheiros obscuros, alimentado pelas revistas do coração e pelos sonhos levianos de classe média. Portugal que, evidentemente, somos nós, apesar de nos poder parecer que o tipo de pessoas e de meio em questão está muito distante.


Li também um clássico da banda desenhada, A Marca Amarela, de E.P. Jacobs. Não sou grande leitor de BD, not that there’s anything wrong with it, como diria o Seinfeld, mas apenas porque não me puxa muito. Mas sou fã das aventuras de Blake & Mortimer, e como tinha lido há pouco tempo a mais recente (e pós-Jacobs) aventura da dupla, O Santuário de Gondwana, lembrei-me de reler este que é um dos clássicos da série.


Ainda li o meu segundo P.G. Wodehouse, O Código dos Wooster, depois de ter lido Época de Acasalamento aqui há uns meses. Sempre com os mesmos protagonistas, Bertram Wooster e o seu valet Jeeves, os livros são, em termos de trama narrativa, um pouco irrelevantes, variantes do mesmo, mas as peripécias, e sobretudo o humor e o estilo de escrita podem se tornar viciantes. Espero que os livros Cotovia, através da chancela Raposa Matreira, continue a editar as obras deste autor.


Finalmente comecei a ler um livro da Patricia Highsmith, The Tremor of Forgery, uma história de mistério e inquietude, como é habitual na autora. Estou a ler em inglês, o que é uma oportunidade de apreciar o estilo eficiente e insinuante de Highsmith, e o modo como ela nos consegue transmitir sobretudo através da própria escrita, da linguagem, a sensação de desconforto, de que as coisas nunca são o que aparentam, e mesmo assim nunca temos a certeza do que é que elas aparentam.
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Subject:são pedro de moel, 1
Time:09:48 am
30.6.08
De novo em São Pedro de Moel para uns dias de praia (se o tempo ajudar) e de fare niente. O lugar parece estar a sofrer um face lifting. Muitas casas pintadas de novo (de branco) e o hotel sofreu uma remodelação profunda. Está mais moderno e mais confortável. Infelizmente perdeu um certo ar retro e de hotel de província, que lhe dava um certo charme. O ano passado por esta altura estava pouquíssima gente, este ano está cheio de turistas estrangeiros (ok, há também um casalinho gay). O bar estava, depois do jantar, cheio de excursionistas a beber e a falar muito alto, numa daquelas línguas muito ásperas e que parece que apenas podem ser faladas aos berros. Lembrei-me do bar o ano passado, onde apenas costumavam estacionar um casal com ar suspeito e clandestino, e os soldados do posto da GNR, mesmo aqui ao lado, a beber cerveja e a jogar no bilhar.

Como estou um cidadão info-excluído (o meu computador portátil está agónico, não o consigo ter ligado por períodos superiores a cinco minutos), ontem à noite, ainda em casa, tomei nota de duas entradas para o innersmile. Vinha a contar com um computador que havia aqui no hotel, na recepção, ao dispor dos clientes, mas uma das remodelações foi acabar com esse computador e substituí-lo por acessos pagos a um operador wi-fi. Por isso vou transcrever para aqui essas duas entradas de ontem.

29.6.08
Estranho. Hoje, ao longo do dia, encontrei seis pessoas do meu antigo emprego. Num domingo, tempo de praia, seis! Passo semanas sem encontrar ninguém e hoje sempre que saí de casa, em cada curva do caminho, saltava-me à frente mais uma pessoa do meu antigo emprego. Até na bomba da gasolina, no ponto de abastecimento de ar para os pneus. No supermercado foram três, tendo-me uma delas atropelado com o carrinho. Das seis consegui evitar uma, não me apetecia nada conversar com ela. Com três, incluindo a que me atropelou, foram cumprimentos de circunstância. Com as restantes duas estive um bocadinho a conversar porque, não sendo propriamente amigas, são daquelas pessoas que me dá prazer encontrar.

29.6.08
Final do europeu de futebol. Gostei que a Espanha tivesse ganho, porque foi a melhor equipa em jogo, praticou um futebol bonito, vivo, com vontade de jogar e de ganhar.
Agora não percebo a cena de o pessoal ficar feliz porque a Alemanha perdeu. A começar pelos comentadores do desafio na televisão, que nem se davam ao trabalho de disfarçar que estavam a torcer pela derrota alemã. Mais não seja é um bocado mesquinho ficarmos contentes, mesmo eufóricos com a derrota dos outros. Ficarmos contentes porque a nossa equipa ganhou é natural, faz parte, não é? Ficarmos contentes porque os outros perderam, é estranho.
Mas é pior: essa alegria é uma espécie de vingança por a Alemanha ter derrotado a selecção nacional nos quartos de final! Ora isso também já é ser medíocre. Eu aprendi quando era puto que devíamos querer sempre que as equipas que ganham à nossa vençam o campeonato porque isso significa que só os melhores ganham aos melhores.
Agora dá um certo gozo estarmos todos exultantes com a vitória da Espanha e senti-la quase como nossa. Eu percebo que esse gozo é instrumental, mas mesmo assim que me lembre é a primeira vez que vejo os portugueses contentes por os espanhóis terem ganho, e logo no futebol, onde costumava haver uma rivalidade feroz. E lembrar que para aí há um ano o Saramago ia sendo queimado vivo por ter falado em iberismo, e por ter dito numa entrevista que o nosso destino provável era acabar por ser uma província de Espanha.
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Time:12:01 am
vanitas vanitatum et omnia vanitas


Site<br />Meter
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Subject:subito
Time:01:45 am
Estou com dificuldades de acesso à net e além disso vou passar uns dias de férias à praia.
Torno subito





Coração no bolso
para o que der e vier
põe-me a mão no bolso


- Jall Sinth Hussein, POEMAS DO ÍNDICO
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Subject:solo
Time:11:38 pm
Por vezes a beleza é triste e assim explica-se mais facilmente. Mas outras vezes não, é só uma beleza intensa, lírica, derramada como a luz do sol nos passeios de calçada deste Junho português. E deve ser por isso, por essa intensidade impossível, por ser uma nesga de felicidade que entrevemos e sabemos nunca conseguir segurar nas mãos, deve ser, sim, essa improvável e intocável saudade que sabemos que vamos sentir de alguma coisa que nunca provámos, deve ser isso tudo que nos provoca uma imensa vontade de chorar quando nos encontramos, tão desprevenidos e desamparados, perante a beleza.
Deve ser por isso tudo (ou não, diria a menina) que estou aqui a ouvir o disco novo do António Pinho Vargas, Solo, e a sentir que a única coisa decente que um tipo pode fazer perante música assim é romper em choro, lágrimas silenciosas e ternas como passarinhos. É um álbum duplo, os discos têm nome, Imperfeições 1 e Imperfeições 2, e então talvez seja a forma tão perfeita como estas imperfeições nos retratam. As músicas umas são novas, quase todas não, são canções, sim canções antigas, que já conhecíamos de discos anteriores do António Pinho Vargas, mas recriadas como se fossem um hino qualquer à solidão, um apelo à paz, a ânsia da cabeça em desalinho em repousar na serenidade de uma almofada branca.
Que fazer perante um disco assim? Vale chorar?
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Subject:o foragido
Time:05:23 pm
Não vi a entrevista com Vale e Azevedo, não tenho nenhuma simpatia pelo personagem, mas concordo com o bastonário da Ordem dos Advogados quando diz que o ex-presidente do Benfica foi mal-tratado pela justiça portuguesa e tem todas as razões para não regressar voluntariamente e preferir resguardar-se junto de um sistema judiciário, o inglês, que aparentemente lhe dá maiores garantias.
Não está em causa que tenha de ser julgado pelos crimes que cometeu e que por eles deva cumprir pena. Trata-se de que um país é tanto mais civilizado quanto mais garantias o sistema judicial oferece aos cidadãos de que têm direito a ser tratados com dignidade, mas sobretudo de que serão poupados a humilhações e vilipêndios que têm menos a ver com a realização da justiça e mais com subliminares comportamentos do foro da psicologia ou da sociologia.
E a verdade é que, independentemente dos crimes que cometeu, Vale e Azevedo foi tratado com total desrespeito pelas mais elementares regras da dignidade. Não tenho aqui um rol, como é evidente, mas bastar-me-ia apenas um episódio do qual guardo memória e incómodo: a ocasião em que Vale e Azevedo foi libertado da cadeia e segundos depois, e ainda à porta do estabelecimento prisional, foi novamente preso! E, para aumentar a humilhação, tudo defronte do olhar obsceno das câmaras de televisão.
É que há sempre duas maneiras de ver o problema. Se para todos os efeitos a questão aqui é a de um simples foragido à justiça, também é verdade que bastaria esse episódio humilhante para transformar Vale e Azevedo numa vítima da justiça portuguesa e para legitimar a sua recusa em regressar voluntariamente a Portugal.
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Subject:ano 33
Time:11:39 pm
O blog Estrada Poeirenta (que faz parte da lista do meu google reader, o que significa que o leio diariamente) assinala o 33º aniversário da independência de Moçambique, que hoje se comemora, com uma fotografia e um texto sobre a cerimónia da independência passada num campo de futebol da cidade de Nampula.
Façamos aqui uma pequena pausa para, seguindo este link, poderem ir lá num instante ler o post e ver a foto.

Já está? Perguntam vocês (e se não perguntam mais valia perguntarem) porque é que eu chamo aqui a atenção para este post do Estrada Poeirenta. É que, fez hoje precisamente 33 anos, no dia 25 de Junho de 1975, na cerimónia comemorativa da independência de Moçambique, entre os milhares de pessoas que enchiam o campo de futebol da cidade de Nampula, EU ESTAVA LÁ!
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Subject:seis características
Time:05:19 pm
O Pinguim desafiou-me, lá no blog do João, a enumerar as seis características mais evidentes suponho que na minha maneira de ser, daquilo que se chama vulgarmente 'feitio'. Confesso que tenho muita dificuldade em responder convenientemente ao proposto.

Desde logo porque uma das minhas características mais evidentes é a timidez, e por isso gosto pouco de me pôr a olhar para mim, sobretudo se estiver muita gente a ver. Como qualquer tímido, passo muito tempo a ver e a observar o mundo à minha volta e a tentar perceber como é que hei-de lidar com ele, o que me leva, acho eu, a ser um bocado egocêntrico em demasia. Mas egocentrismo não é exactamente a mesma coisa que ser egoísta, e isso acho que não sou, ou pelo menos acho que não sou muito; pelo contrário, até acho que sou um tipo generoso, sem falsa modéstia. Se não cultivo a modéstia, esforço-me todavia por cultivar a humildade, até porque acho que tenho a tendência para ser um bocadinho arrogante. Esforço-me por ser sempre honesto, sobretudo comigo próprio, nunca me enganar nem ceder à auto-complacência. Acho que é esta honestidade que me leva a ser lúcido, por vezes de uma maneira implacável.

E tentando ter a maior lucidez possível, confirmo que tenho muita dificuldade em eleger as seis características que melhor me definem.
Mas sempre que me pedem para eu me definir (e agora tornou a acontecer com este meme) a primeira coisa que me vem à ideia são os versos de uma canção do Caetano Veloso: «sou tímido e espalhafatoso». De facto não sou espalhafatoso, mas gostava de ser, precisamente assim, tímido e espalhafatoso. De alguma maneira esta canção do Caetano, a Vaca Profana, faz parte de um lotezinho de canções dele a que recorro para me confrontar comigo próprio, para me medir. Mais do que as canções da minha vida, são de algum modo as canções que contam a minha vida.
Por isso acho que a melhor maneira de responder ao desafio do João é mesmo pôr aqui o clip da Vaca Profana cantada pela Gal Costa, que foi aliás quem lançou a canção no lindíssimo e antiquíssimo (anos 80?) disco justamente intitulado Profana.



Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo assim minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Ê
Êê dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas

Segue a movida Madrileña
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Pau, punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Ê
Êê vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los puretas

Quero que pinte um amor Bethânia
Steve Wonder, andaluz
Como o que tive em Tel Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk’s blues
Ê
Êê vaca de divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas

Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo um grande amor perdi
Caretas de Paris, New York
Sem mágoas estamos aí
Ê
Êê dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas

Mas eu também sei ser careta
De perto ninguém é normal
Às vezes segue em linha reta
A vida, que é meu bem, meu mal
No mais as ramblas do planeta
Orchata de chufa si us plau
Ê
Êê deusa de assombrosas tetas
Gota de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas
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Subject:o jardim dos perversos
Time:12:40 pm


Acabei de ler ontem à noite o livro O Jardim dos Perversos, da autoria de Fernando Duarte Rocha (edição Guerra e Paz). Em poucas palavras, o livro organiza-se como a memória ficcionada de um adolescente, na segunda parte da década de 70, habitante de um bairro periférico de Lisboa (no caso, Moscavide), e que basicamente ocupa os seus dias a jogar futebol, a roubar discos e livros e a alinhar com homossexuais a troco de dinheiro e a quem acaba por assaltar. Nos intervalos reúne-se com os amigos e companheiros de aventuras no jardim do bairro, o que dá o título ao livro. Suponho que este relato terá muito de autobiográfico, de memórias próprias do autor, mas isso é perfeitamente secundário, pois a partir do momento que é filtrado pela literatura passa a ser ficção.

A primeira nota interessante do livro tem a ver com uma questão geracional: o autor tem a minha idade, o narrador e protagonista também, e há todo um quadro de referências comuns, sobretudo culturais, como as bandas de rock, os discos de vinil e os livros e autores, mas também de acontecimentos e do próprio ambiente politico e social da época.
Para além desse quadro de referências o autor consegue traçar um retrato bastante impressivo e fiel do que era efectivamente o Portugal urbano (quase exclusivamente lisboeta, dado que o país na altura era essencialmente rural) dessa altura, e de como era ser adolescente nesse Portugal. Como referi resulta do livro um determinado ambiente social e de mentalidades que está bastante bem conseguido. Acho que não há ninguém que tenha vivido esse tempo que não vai reconhecer no livro o país em que viveu.
Muito do que era a vivência da homossexualidade nesse tempo está igualmente retratado no livro, quer no que respeita aos jovens protagonistas (a prostituição, os assaltos aos homossexuais, a pedofilia em modo português suave, o Terminal do Rossio e o Imaviz, a praia da Caparica, etc) quer no próprio retrato, ainda que fugaz e obviamente limitado, que acaba por resultar do que era ser homossexual em Portugal ou pelo menos uma certa vivência da homossexualidade.
Aliás a este respeito lembrei-me muito de um livro do Guilherme de Melo (que de resto prefacia o livro de Fernando Duarte Rocha), publicado creio que ainda em finais de 70 ou então logo no início dos anos 80, intitulado, penso eu que não tenho aqui o livro para confirmar, A Homossexualidade em Portugal, cujo retrato, tanto quanto me lembro, não anda muito longe do que resulta deste Jardim dos Perversos.

Como aspectos mais frágeis, destaco uma linguagem um pouco naive, por vezes mesmo um pouco kitsch, que nalguns casos acaba por estragar o ambiente do livro por se tornar um pouco risível. Dou o benefício da dúvida ao autor de tentar criar uma linguagem própria para o personagem, coerente com o seu carácter, mas o autor tem o narrador e personagem tão colado a si, que não é muito crível que assim seja.
Outro aspecto que achei menos conseguido tem a ver com o facto de o narrador por vezes se dispersar em expor os seus pontos de vista sobre temas pretensamente sérios. As suas opiniões são, regra geral, pouco elaboradas e por isso não muito interessantes, e além disso provocam quebras num ritmo narrativo que é geralmente muito bom. Estou-me a lembrar, por exemplo, de um capítulo que relata um encontro com duas testemunhas de Jeová que, para falar com franqueza, não tem interesse, não contribui nada nem para a narrativa nem sequer para o desenho da personagem.
Ao contrário, gostei particularmente dos pequenos interlúdios com memórias de infância do narrador, não só porque ajudam a caracterizá-lo melhor, mas também porque nos dão informação interessante acerca da época.

Em suma, e embora não se tratando de uma obra literária de grande fôlego, achei o livro muito interessante, escrito com ritmo e com sentido da narrativa, e que é indispensável para quem tem memória dos anos 70 e de como era o país em que vivíamos nesse tempo, mas também para quem tem curiosidade em ficar a conhecer melhor o que era ser jovem, ou talvez com mais rigor o que era um dos modos de ser adolescente no Portugal a seguir à revolução de Abril.
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Subject:saramago e le corbusier
Time:04:41 pm
Rápida incursão na capital para ver duas exposições.
A primeira, no Palácio da Ajuda, José Saramago – A Consistência dos Sonhos, um belíssimo passeio pela obra e pela vida de escritor do prémio Nobel da literatura. Uma exposição muito bem montada e com um acervo documental e iconográfico muito rico. Parece-me, para quem gosta do escritor, uma oportunidade única de ficar a compreender melhor o universo literário de Saramago, pois não me parece muito fácil reunir de novo a quantidade expressiva de elementos aqui expostos.
Gostei sobretudo da primeira parte da exposição, a que segue, em linha cronológica, o percurso do escritor. Há, como é óbvio, uma componente de curiosidade pura em poder observar determinados documentos. Mas há igualmente um interesse muito forte em perceber o enorme compromisso de Saramago com a literatura, os seus métodos de trabalho, e a forma como o escritor se projecta no mundo sempre a partir da literatura.
Para além desse compromisso com a literatura, houve outro aspecto que me impressionou bastante. Quem conhece Saramago, que lhe lê os livros, nomeadamente os volumes dos diários de Lanzarote, quem lê ou ouve as suas entrevistas, quem está atento às suas movimentações, sabe que é mais ou menos evidente no escritor uma vontade de posteridade, que é outra coisa do que a simples e proverbial vaidade. Ora o que me surpreendeu foi de certo modo perceber nos papéis de Saramago, na forma como ele documenta o seu próprio percurso de escritor, as marcas dessa vontade, a que não é alheia a riqueza iconográfica desta exposição.

A outra exposição que vi foi Le Corbusier – A Arte da Arquitectura, no Museu Berardo. Talvez porque viesse da exposição de Saramago, de que gostei imenso, talvez porque tivesse expectativas altas em relação a esta exposição, a verdade é que fiquei um pouco indiferente perante esta proposta de olhar a arquitectura e o design de Le Corbusier a partir da perspectiva da sua ligação à arte e aos grandes movimentos da arte no século XX.
A arquitectura é possivelmente das artes humanas a que mais me fascina, talvez porque, por um lado, exige uma linguagem muito articulada entre o discurso artístico e o discurso técnico, e, por outro, pelo seu lado fortemente transformador, pela forma como se inscreve e reescreve a paisagem, quer a humana quer a natural. Talvez por isso quando vejo uma exposição de arquitectura estou sempre à espera de ver desenhos, projectos, maquetas, modelos. E disso (com excepção das maquetas) há relativamente pouco nesta exposição. De certa forma para mim os paradigmas das exposições sobre arquitectos são duas mostras que vi sobre a obra de Frank Lloyd Wright, uma delas aqui mesmo neste espaço do CCB, e outra sobre Óscar Niemeyer, no antigo pavilhão de Portugal na Expo. Qualquer delas era brilhante em devolver ao espectador esses dois aspectos, quer no tocante à obra construída ou projectada, quer, mais importante, no retrato que faziam do próprio desejo transformador que anima o arquitecto.
De qualquer modo foi a primeira grande exposição que eu vi dedicada à obra de Le Corbusier, e que nos dá uma justa evidência da dimensão de quem é um dos mais estimulantes arquitectos da contemporaneidade.

Claro que aproveitei e fui dar uma vista de olhos às restantes mostras do Museu Berardo, duas salas com obras da colecção do museu e ainda uma outra exposição de fotografia, muito interessante, sobre o lugar da Utopia na arquitectura moderna.

Pelo caminho, um passeio a pé desde a Ajuda até Belém pela Calçada da Memória, um pequeno almoço tardio na fábrica dos pasteis de Belém, com torradas de pão alentejano e dose dupla dos ditos, um almoço ainda mais tardio na esplanada do Noo-Bai, que eu já conhecia, e é uma delícia, pela ementa muito gay, pela frequência idem idem, e pela vista luminosa sobre o porto e o rio, e uma passagem rápida pela Fnac Chiado, já a caminho do comboio de regresso, e que me serviu para comprar um livro de poesia de que falarei noutra ocasião.

Em suma, papinho cheio como há muito não acontecia.
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Subject:as leis do futebol
Time:08:57 am
O que eu mais gostei no jogo de ontem da Espanha frente à Itália, foi do guarda-redes italiano, o Buffon, a fazer festinhas aos jogadores espanhóis. É preciso ser um enorme atleta para num momento de grande tensão manter uma certa descontracção e conseguir não esquecer que o adversário é ainda um amigo ou um colega.
Mas também ao puto Torres quem é não desatava a fazer-lhe festinhas, não é?
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[icon] um voo cego a nada
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