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Ano-novo [Jan. 13th, 2007|06:30 pm]
[Trilha sonora: |Coldplay - CD Parachutes]

Caprichei na escolha das palavras.
Abandonei o bom senso da sociedade retrógrada ao pegar o rumo do diferente.
Dentre a mudança, surgi luminoso. A luz da inexperiência. Do risco. Dos caminhos. Era o começo de uma trajetória de erros e acertos. Como todas.

Quando a contagem regressiva terminou, lembrei-me de não ter feito nenhuma lista.
Nem das realizações passadas. Nem dos propósitos para o ano recém-chegado.
Quiçá quisesse mais capacidade para lidar com o tempo.
De todo jeito, brindei com muito champanhe à vida.

E é isso que desejo pra todos os leitores deste blog e os iletrados virtuais! Vida a todo mundo! Vida boa.

Na primeira quinzena de 2007, recomeço a dar vida ao blog.
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PARA ENTENDER COMO TUDO COMEÇOU [Sep. 17th, 2006|03:00 pm]
PREVIOUSLY...
"A discussão do piloto com os colegas cotistas deixava-o ansioso para ouvir o produto. Mas ele sabia da importância do incipiente processo. (...) Liana e Diogo chamaram a atenção de quem passava para, sem saber, tornar-se parte integrante e essencial do programa."

" - Vamos a uma discoteca pra eu comprar um CD que inspire você a fazer a trilha sonora?
- Claro, topo sim."

" - Muitas saudades da sua terra?
- Gostaria de ser mais apegado às minhas raízes. (...) Me envolvi com uma... Com uma pessoa por um ano e dois meses. E Brasília me lembra essa... Essa pessoa."

"Ele quase disse que os pronomes certos poderiam ser usados. Ora, era tolerante, pós-moderno e periodístico. Qual é o problema de tratar os bois pelo nome?"

" - Di, a música é linda!
- Eu não disse, Ana?
- E, pelo visto, não é só a música que te encantou...
- (suspiro)"

" - Gabriel e Ana, eu já decidi.
- E então?
- O mundo não está preparado para mim. Sou um sujeito pós-moderno.
- Blá-blá-blá.
- Dane-se! Que me julguem. As pessoas sempre fizeram isso em todas as gerações. Estou seguro de que sou o mesmo. Por isso, vou à luta."
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PILOT: The Last Chance (Part 1) [Sep. 17th, 2006|02:59 pm]
Os CDs estavam prontos.
Os agradecimentos, também.
- Não acredito. Vamos entregar a monografia finalmente!
Ela parecia mais animada por causa do presente belga que a esperava do outro lado do oceano.
Ele aspirava a um final feliz de universidade, mas ainda não sabia como engatar um primeiro encontro.

- Ana, os CDs!
- Fiz um pra cada um, ué.
- Claro, vou entregá-los pessoalmente!
- Hum... Já entendi. O "queridos" na dedicatória não bastou, né?! Eu não falo mais nada...

Na primeira ligação, um mis-en-cène ligeiro de quem nem se importava.
- De todo jeito, seria legal você me entregar o CD, eu ouvir e a gente sair pra discutir depois.
- É... Pode ser. A gente pode pensar nisso mais tarde.
Mas nada da entrega – em todos os sentidos.

O ritual de conquista incluía adicionar o contato pelo Messenger.
Sem respostas pelo MSN, esqueceu por alguns dias.
E viajou. No retorno, veio a conversa que transformou.

Plural Apresentação: 02/08 – I guess I fell in love with the Plural's main song.
.:. Castelo de areias movediças .:. - Really? =) =) =)
.:. Castelo de areias movediças .:. - What are you going to do today?
Plural Apresentação: 02/08 - D'you mean... Tonight?

Sentiu o coração palpitar como há muito já não batia.
A vontade era grande, mas declinou o convite por apreensão.
Enviou mensagem de desculpas e esperou uma resposta durante a madrugada.
Tinha desistido até que, uma noite depois, um sinal martelou-lhe o otimismo.

O encontro foi rápido, embora sem afobações.
Ele chegou enquanto a turma bebia e conversava.
Enfim, entregou o CD com o piloto e o segundo programa.
Na volta, recebeu um recado: “O Plural ficou ótimo”.
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PILOT: The Last Chance (Part 2) [Sep. 17th, 2006|02:58 pm]
Já era o dia seguinte. A última semana como universitário.
Havia combinado com Dudu de assistir à defesa de um colega em comum.
Enquanto aguardava a chegada do amigo, foi incentivado por Gabriel para a atitude definitiva.
Estava ciente das mudanças que aquela ação implicaria.

Decidiu esperar no carro, e o pôr-do-sol alumiava o céu de estudante.
De trilha sonora para definir que rumo tomaria, escolheu Coldplay.
Mirou o retrovisor central para se ver pela última vez como os outros o viam.
Voltou o olhar para o céu que nunca mais veria como naquele instante.

“É minha última chance. Se for para errar, tem de ser agora”, concluiu.
Pegou o celular e fez um convite, dissimulando o real interesse.
- Claro, vamos sair, sim.
Pronto. A encomenda havia sido feita. O presente: a incerteza.

Nas palavras derradeiras com Dudu, havia a pista.
- Pois é, tenho um encontro hoje. The first date ever.
No princípio, havia o verbo. Hesitar deu lugar a seguir.
Depois do banho, pegou o carro mesmo sem saber lá na curva o que é que vinha.
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PILOT: The Last Chance (Part 3) [Sep. 17th, 2006|02:55 pm]
Cena 1: Crepe Au Chocolat, 31 de julho.

- Talvez o pior sentimento do mundo seja medo... Eu tenho medo. E você?
- Medo? (silêncio) Acho que não. Sei lá. Sinto-me tão corajoso. Talvez eu seja menos do que imagine.
- Eu tenho medo de tantas coisas...
- Mas o fundamental é bancar situações em que você e o seu medo fiquem cara a cara.
- É um desafio e tanto! Você já fez isso?
- Várias vezes... Talvez esta seja uma delas.
- (silêncio seguido de sorriso sem graça)
- E com relação ao amor? Você já superou aquela... “Pessoa”?
- Ah, sim, já.
- Está disponível, então?
- É... (risos) Estou sim.

Cena 2: Carro, 31 de julho / 1º de agosto.

- Eu te deixo constrangido?
- (riso nervoso) Um pouco.
- Nossa, desculpe. (atrapalha-se) Nossa, desculpe mesmo. Foi mau. Não sei o que você entendeu, mas...
- Na verdade, eu não sei se entendi.
- Não, acho que entendeu. É isso mesmo. Tudo são eufemismos. Você, “aberto”. Eu, “pós-modernidade”. Mas desculpe, já vou embora mesmo e...
- (interrompe) Não, que isso! Você não quer subir?

Cena 3: República, 1º de agosto.

- (...) E a Pitty queria cantar antes da gente.

Não prestava atenção ao que ouvia. Perdera-se em meio a tantas cenas dissonantes.
Mas já estava ali, e não tinha mais escapatória nem justificativa.
Mais uma batida arrítmica para dar o tom da noite.
Aproximou a mão das outras mãos e a deixou flutuando no ar.

Victor segurou a mão perdida na gravidade.
Sentiu a gravidade da situação no trânsito de desconhecidos.
Não sabia quem era quem, onde estava, o que aconteceu para estar ali daquele jeito.
Não se reconhecia, mas tinha certeza de que era o momento da revolução.
Fechou os olhos, beijou Victor e enxergou o mundo real.

TO BE CONTINUED...
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IGUAIS [Jul. 1st, 2006|07:02 pm]
[Trilha sonora: |Qualquer uma do cd "X&Y" do Coldplay]

Quando desci do ônibus, senti a ventania de encontro ao meu corpo.
Meu casaco quase voou, e por pouco eu não consegui subir a ladeira.
Sem prédios, Samambaia é livre para a circulação de ar, sonhos e histórias.
A primeira igreja por que passei, a São Ignácio de Loyola, foi palco de atividade comunitária do Cacom, quando ainda era vice-presidente. Foi no dia em que fiquei com Paula, a primeira namorada.

Quase três anos depois, voltei à cidade satélite para visitar outra paróquia.
Santa Luzia - a organizadora da Paixão de Cristo negro.
Diogo e Diego estavam juntos nessa empreitada - na reta final do projeto experimental "Plural: aqui você ouve a diversidade".
Negro de Samambaia e branco do Plano encontraram-se para entrevistar o Jesus negro e compreender o impacto dessa representação na comunidade.
Diferentes formas de ver contribuíram para perguntas bem-feitas, apuração permanente, aprendizado mútuo e aulas de orientação em Samambaia.

O contraste era claro na viagem ao lar de Diogo e de tanta gente negra, que só vejo no Plano num papel quase invisível.
Se cada um tem um lugar, por que não inverter as coisas, mexer nas estruturas de poder e criar novos papéis?
Pois bem, ali estávamos dois jornalistas, um branco e um negro, no mesmo posto.
Alguns semestres de diferença, que só servem como vínculo de confiança entre pessoas que acreditam na vitória da igualdade.

Uma igualdade que não deve estar só no papel.
Sem a distância de quilômetros de SIA, Taguatinga, Águas Claras para separar cores e rendas.
Uma igualdade pela qual escolhi lutar como sujeito, ator social e jornalista.
E é graças à Babi, Liana e Diogo que Ana e eu estamos concebendo um de nossos maiores projetos.
A pluralidade só existe quando todos estão no mesmo lugar.

Então, eu vou a Samambaia do mesmo jeito que Diogo vem ao Plano.
Então, eu, que nunca gostei de ser chamado de Diogo, troco as bolas ao chamá-lo por fone:
- Oi, Diego. Aqui é o Diogo.
Ato falho, diria Freud. E ele estaria certo.
Tudo porque aspiramos à igualdade.

Foi só uma manhã, mas completa.
Pouco depois, já estava de volta numa lotação rumo ao avião.
Ciente de que certas bandeiras são para sempre.
E a igualdade racial e, por conseguinte, social é a minha.
Para sempre.
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SÓ SINGELO [Jun. 30th, 2006|10:39 pm]
Eu só queria te ligar, dizer como foi meu dia e perguntar como foi o teu.
Só queria mandar um beijo e receber outro, por telefone mesmo.
O que vale é o jeito de falar e as fantasias de que amanhã estaremos juntos.
Eu só queria existir contigo ainda nesta vida.

E me dói porque me sinto assim... Calado, me escondendo, sem ti.
E me deixa um vazio do tamanho do norte, que já deve ter se perdido por aí.

(Suspiro)

Tu não tens idéia do que significas pra mim.
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FATORAÇÃO [Jun. 15th, 2006|09:19 pm]
[Como me pongo: | curious]
[Trilha sonora: |Rod Stewart - "The way you look tonight"]

Tudo começou por causa de um beijo que não aconteceu.
Saiu correndo antes que visse a cena.
As coisas estavam muito enroladas na sua cabeça.
Por sorte, encontrou um amigo fora da boate e uma carona de volta à segurança.
Naquele quase episódio, uma descoberta: ele gostava da pessoa mais improvável.

Eram as conversas, as palavras, as músicas, tudo compartido desde o carnaval, quando se conheceram de verdade.
Não havia encontros na vida real; o flerte era por internet.
Mas era flerte? Ele não sabia. Tanto tão nebuloso e só pensamentos.
Mesmo assim, um sentido para ambos.
Na cabeça porque a realidade havia sido outra.

Fugiu do local do crime, mas não apagou os vestígios da memória.
A dor da verdade foi atenuada com doses de amigos e desafios.
Sim, uma prova. Um concurso. Público, como ela, ela mesma, como ela queria!
E ele aceitou e marcou e saiu com certa esperança.
O gabarito, no entanto, minou-lhe as expectativas.
Um surpreendente resultado mudou o quadro do julho melancólico de 2004.

Agora tinha uma perspectiva. Algo menos fluido, em que podia se amparar.
Sorriu e, dessa vez, não sorria só.
A improbabilidade estava perto. Em convalescença, mas em presença.
E aquela sensação boa de estar junto começava, continuava, persistia.
Ele sabia que não era recíproco, mas estava encantado com ela - a improvável!

Um novo amor, combustível para o projeto experimental.
E ela, a de sempre, a onipresente retornou. Os dois na reta final - unidos pelo amor e pela confiança.
Além disso, uma pergunta que, como qualquer indagação, deve ser respondida sem relutar:
- Quando você se forma?
Uma resposta que, como qualquer certeza, não deve ser desperdiçada:
- Até o fim do mês.

Ele correu contra a burocracia.
Com ela, gravou o piloto - rejeitado pela orientadora. Mas o essencial... Este valia!
Sorriu e conseguiu.
Todos os documentos estavam prontos.
E, mesmo sem um caminho definitivo, ele gostava de imaginar as possibilidades.
Tudo imprevisível no clímax da juventude.

Improvável... Como ele queria.
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FORA DO LUGAR [Apr. 1st, 2006|09:21 pm]
Se o mundo fosse incolor, minha vida teria sentido. A pele denuncia o crime: nasci negro e fui condenado à prisão perpétua. Estou preso a um corpo que me faz infeliz: o nariz achatado, as narinas bem abertas, os cabelos com textura de musgo. Por causa de traços que mais parecem rabiscos, tenho de aceitar o lugar de cópia malfeita que cabe a mim. Sou um esboço escuro de um homem de verdade. É o que o mundo consente e eu engulo.

O refluxo começou a doer depois que entrei nesta escola, o Ateneu do século XX. Tão logo completei 14 anos, mamãe decidiu que seria adequado colocar-me em um colégio interno. Ela havia poupado todas as economias de vendedora para investir na minha educação. Ensinava-me todos os dias que a maior dádiva do mundo era o conhecimento. Assim, que nos faltasse carne no almoço e só houvesse sopa na janta; era a garantia de alimentação no porvir – graças à instrução que eu teria. E franzino, com dois ou três trajes alinhados e um par de sapatos lustrados, comecei o ginásio entusiasmado com todos aqueles livros, a biblioteca gigante, o campo de futebol vasto – bem maior que o de terra batida, ao qual me acostumei na infância -, o bangalô mais confortável que o quartinho dos fundos que mamãe e eu dividíamos.

Já na primeira semana de classes, o diretor chamou-me à sala dele. Deu os parabéns pelo meu histórico escolar; nunca podia haver imaginado que um “jovem como eu” seria um estudante brilhante. Sim, eu havia sido admitido pelo ótimo rendimento. Mas, frisou, minha trajetória acadêmica teria de ser ainda melhor na instituição.

- E é bom se comportar! Saiba que estarei sempre de olho em você. – advertiu, alisando o pomposo bigode.

Acreditei que o diretor havia repetido o discurso para os outros quatrocentos alunos da escola. E eram tantos... Todos muito simpáticos. Havia uns mais baixos, outros mais altos, uns fortes, alguns gordinhos... Olhando para eles, eu só podia aspirar a boas amizades do novo tempo que se abria.

Nos primeiros meses, o temporal de verão impedia que jogássemos bola. Os contatos entre os colegas ocorriam nas refeições e durante os jogos no pátio dos bangalôs, à noite, antes de dormirmos. Quando todos éramos desconhecidos, as coisas pareciam mais divertidas. Exceto em uma situação, que, então incompreensível, me marcou pelo medo. Foi no quarto dia de aula, quando Bianco, com voz grave, pediu a palavra ao professor de Álgebra:

- Mestre, me recuso a continuar nesta sala. Meus pais me disseram que os crioulos são péssima influência. – disse, rasgando-me.

O instante de pavor não era culpa só de Bianco, mas da minha descoberta. Naquele momento, todos os meus colegas brilharam alvos como porcelana. Também percebi que me fitavam e, constrangido, encurvei-me. O professor, meio atrapalhado, deu uma tossida forte e disse que conversaria com Bianco no intervalo. Torci para que o dia passasse logo porque temia que ele fosse me bater. Má influência... Eu?! Por que os pais dele lhe falaram isso? Adormeci assustado, mas voltei ao sossego no dia seguinte. Mudaram o colega de sala. Ainda assim, busquei ficar longe de Bianco em qualquer atividade do colégio.

Para dar orgulho à mamãe e ao diretor, dedicava longas horas à leitura. Passeava por poesias, livros de História, crônicas e artigos de jornal. Durante o almoço, incitava os colegas de mesa a uma discussão sobre algo que havia lido. Eles eram pouco receptivos; sorriam e se entreolhavam, como se não tivessem nada a dizer. Aquela apatia não era incômoda no início. Talvez fosse melhor crer que as coisas eram boas assim... Entretanto, à medida que os dias passaram, os grupinhos começaram a se formar. Os mais afeitos a esporte, os estudiosos, os preguiçosos, os aprendizes de artistas... E eu. Sozinho, sem entender por quê.

Quando mamãe ligava, eu lhe contava sobre todos os mundos que visitava: números, personagens, animais, células. Compartilhávamos aquela empolgação de novidades. Preocupada, queria saber como eu me sentia, se me alimentava direito. Replicava-lhe que nunca houvera comido tanta coisa boa quanto na escola e que, sim, estava muito contente. Quando punha o telefone no gancho, limpava o rosto de lágrimas. Dirigia-me ao pátio, onde os rapazes jogavam cartas, dominó ou desenhavam. Aproximava-me e me oferecia para a próxima partida ou ilustração. As respostas eram sempre negativas:

- Ah, esta é a última rodada. Depois, vamos dormir.

- Só pode jogar quem estava aqui desde o início.

- Você não tem noção de perspectiva... Não poderá pintar!

Nas oportunidades que surgiam, até tentava ser o primeiro a chegar ao pátio. Peguei também um livro sobre pintura e treinei. Todavia, os entraves sempre apareciam. Eu nunca podia participar. Por isso, comecei a desistir. De insistir, de competir, de integrar-me. Quando veio a estiagem, contudo, a notícia de que o campo de futebol podia ser usado alegrou-me. Quiçá conquistasse alguns amigos nas peladas, mostrando o meu domínio de bola! As tentativas, como deveria ter previsto, foram malsucedidas. Todas as vezes, era o último a ser escolhido pelo capitão do time. Meu lugar, portanto, era no banco de reservas. E a imagem do que eu vivia começava a ficar nítida. Vinte e dois brancos jogando, divertindo-se, todos juntos. E eu, sozinho por condição.

A cada mês, ficava mais recolhido. Era até engraçado ver na TV da ante-sala do diretor a propaganda do alistamento militar: um branco, um negro e um índio – pela unidade do Brasil. A realidade é tão camuflada quanto o uniforme do exército. Nos exames de História, eu questionava a versão oficial, mas a censura me atingia. Nunca passava da nota sete. “Não vá tão longe”, alertava o professor. Os colegas celebravam os pontos obtidos pela condescendência com os livros. Fez-me rir a crença de mamãe na importância do conhecimento. Li, estudei e abaixei a cabeça. Os outros é que estão certos.

A ferida pareceu cessar nas férias do primeiro ano. A lembrança do iminente período escolar dava-me náuseas. Não podia, todavia, frustrar as expectativas de mamãe em ver-me formado na escola e pronto para ser indicado a uma faculdade. “Você vai ser alguém”, ressaltava – ênfase de que duvidava devido à indiferença alheia. Mas tanta motivação deixou-me esperançoso para a segunda série. A vontade de ser transpôs o receio.

Procurei o professor de Educação Física e disse que queria participar da seleção de futebol da escola. Ele argumentou que minha “falta de interesse” no ano anterior só poderia ser compensada se eu fosse bom jogador. Supliquei-lhe uma chance para treinar com os colegas, e só assim ele cedeu. No dia do amistoso, todos estavam carrancudos com minha atuação como atacante. Os gols que marquei mostraram-me que vitórias ainda eram possíveis. O capitão da equipe se viu obrigado a aprovar a performance. O professor autorizou meu ingresso na seleção. As boas-vindas dos companheiros de time, porém, deixaram o meu orgulho em estilhaços:

- Sempre soube que preto era bom em futebol. Em alguma coisa, tinha que ser, né?!

Foram sete meses de gols à custa de preconceito. À noite, chorava no bangalô após desligar o abajur. Ora ouvia aplausos por eu ser artilheiro, ora vaias cortantes por pequenas falhas: “ê, neguim”, “pô, preto”. Estas ecoavam por mais tempo na minha cabeça... A angústia nas quadras implicou uma redução nas notas. Na sala de aula, só broncas pelas resenhas e redações ruins. Para recuperar-me nos estudos, deixei o futebol. Apoiei-me na perspectiva que mamãe traçou para mim e retomei o sucesso acadêmico. O professor de Geografia, um dos poucos que eu admirava, elogiou minha prova em todas as salas. O sorriso e a coluna reta passaram a me acompanhar.

Faltavam três dias para o fim do segundo ano quando ouvi que Bianco, o colega cujos pais não respeitavam crioulos, reprovaria. Estudei bastante para o último exame de Literatura e, à tardinha, saí da biblioteca rumo ao dormitório pensando em Aurélia, Bentinho e Pombinha... Quando cruzei o pátio, oito colegas me cercaram e me puxaram pela camisa do uniforme. Pressionaram-me com força contra a parede da cantina. Acuado pela agressão, comecei a gritar. Tabefes e socos nocautearam-me a consciência. Quando despertei, as cenas em preto-e-branco da novela mostravam só a cor dos meus colegas. Aliás, havia uma empregada negra, oferecendo bebidas a advogados, médicos, jornalistas... A quem é importante. Mamãe saiu da sala do diretor e, perplexa, sentou ao meu lado:

- Por que você tinha que aprontar, meu filho? Por quê? Você tinha futuro... – lamuriava-se, não me dando chance de entender o que se passava.

O diretor chamou-me e mandou eu arrumar as minhas coisas. A menos de uma semana de terminar o segundo ano, fui jubilado do colégio interno. A punição era branda para um aluno que havia colado em todas as provas com anotações sob a carteira. Bianco e os amigos dele foram testemunhas de tal conduta reprovável. Por isso, bati nos oito. Sorte a minha não ser levado para uma casa de detenção. Os olhos dos coitados estão mais roxos que os meus. Suspirei de dor e concluí que não adiantaria contra-argumentar. Que força teria minha voz em um lugar a que não pertenço?

Mamãe, ainda em prantos, ajudava-me a recolher as poucas peças de roupa, os poucos calçados, o pouco tudo que tinha e que continuaria muito pouco. Queria explicar-lhe a armadilha de que fui vítima, a maquiagem dos brancos, a perseguição. Compreendi, contudo, que a justificativa do diretor teria sempre mais valor que a minha. Amo mamãe, mas ela não entenderia que, quase cem anos depois, a abolição da escravidão não vingou.

“Se o mundo fosse incolor, minha vida teria sentido”, refleti. Junto à mamãe, afastava-me do templo do conhecimento. Olhei pra trás e vi Bianco celebrando a aprovação na escola. No pátio dos bangalôs, havia uma personagem fora de foco. Forcei a vista e descobri meu professor de geografia. Olhava para mim, consternado com a situação. Resignado, balançou a cabeça e encolheu os ombros. Deu meia volta e desapareceu. Assim como mamãe, ele já sabia o desfecho da minha narrativa. E eu também.
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o mundo dói em mim [Feb. 22nd, 2006|11:52 pm]
às vezes, eu acho que toda a dor do mundo está comigo
que sofro por amigos, inimigos e desconhecidos
que choro sem porquê por quem não merecia um quê,
uma lágrima contida contém o que ninguém espera
todos estão indiferentes enquanto eu - pudera... -
desabo pelos cantos, em prantos, frangalhos de vida
um sábio ressabiado alvejado por certa ferida
que vai arder, sangrar, doer até que eu sinta tudo
e, mudo, sem força, na forca, expie os pecados todos
com uma cruz no coração, ao crime que me condena eu quase resisto,
como padece a geração, sacrifico-me por ela tal qual um cristo.
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ESTOQUE DE INCONSCIÊNCIA [Feb. 18th, 2006|05:33 pm]
O relógio martela-me à vida - ou o que ainda resta dela.
Quando os pés fervem, a camisa está encharcada.
Os fios enchem ralos do chuveiro. Os cabelos ficam ralos. Perco o que protege minha cabeça.
Perco a cabeça e tiro a roupa de quem nunca vi.
Quando a ebulição é no coração, derrama na camisinha.
Os livros e apostilas saltam sobre mim e é só pó.
Tosse, muita tosse, alergia a pensar. Agora, é hora de sentir.
O despertador toca pro meu dia começar cedo.
Cedo todo meu juízo pra estranhos. O eu fede, os dentes tremem e as rugas brotam no rosto.
E tenho um gosto azedo, limão enjoado, o estômago dói. Fiquei verde depois de maduro.
Caí caquético no chão. Caí careca. Cara, caí calvo chateado. Cacos de mim.
Não sabia que era de vidro. E material inflamável quero incendiar. O pequeno pavio é impávido colosso.
3... 2... 1... TNT. Esmorece, morre, renasce, fênix. Corpo cor de fogo, cheiro de cinza, deixa o jazigo.
Desintegro-me e reintegro. Aroma de bálsamo renovado, corpo cor de alívio, volta à vida.
Ajusto o despertador pra minha noite acabar logo.
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HORA DE CARNAVALIZAR [Feb. 2nd, 2006|10:27 pm]
[Trilha sonora: |Qualquer uma dos Tribalistas ou do duo Seu Jorge e Ana Carol]

Nunca havia sentido tanta vontade de carnaval quanto naquela tarde. Acostumou-se a passar o feriado trancado no quarto, esquecido entre cama, comida e televisão. Todos os anos, resmungava alguns nomes feios quando o desfile das escolas de samba do Rio aparecia na tela dele sem porquê. Na verdade, os dedos no controle remoto tornavam volta e meia para a exibição da grande festa popular. Ele tentava deglutir o que confetes, samba e corpos seminus lhe significavam. Pigarreava para disfarçar de si mesmo um certo interesse e, enfim, mudava o canal. Mal sentia o desejo brotar do colo tapado pelo edredom, dissuadia os pensamentos. “Bobagem; carnaval não tem nada que ver contigo!”

Tarcísio estava certo; o nome de artista não combinava com a personalidade dele. Sempre recluso, distanciava-se de gente, contatos sociais, público. Quase uma fobia! Numa folga longa, as cobertas eram companhia certa para dias e noites de festança dos outros. Naquela tarde, porém, um exceto de fantasia tirou lugar dos medos de sempre. No som, um velho LP de samba de gafieira, relíquia ainda embrulhada de mamãe, serpentinava a toca do urso. Imitava o mestre-sala muito sem jeito e tropeçava a todo momento. O traje para aquela noite tão mágica, ele já tinha escolhido. Era um macacão marrom, tudo que havia no roupeiro do papai. Pé pra lá, pé pra cá, cai mané pra levantar. O ziriguidum, certamente, não era de família. Só gente silente e chata – em que inverno fora criado!

Mas a hora era outra: fazia calor e os ombros e braços ficavam à vista pela primeira vez. A máscara, havia comprado para uma ocasião especial como aquela. Sabia que um dia pularia carnaval – com cara de fantasma. E finalmente o desejo, segundo ele fortuito, fazia-o ajeitar no rosto a personagem. Debaixo do bloco, aguardava o táxi para levá-lo pra longe. Sairia da Asa Sul para cruzar as Brasílias que não conhecia. O destino era o Ceilambódromo, paraíso de molejo, da multidão de pobres, das mulheres quiçá lascivas como na TV e de fantasia.

Mascarado, inibiu o motorista sempre ávido por conversa. Enquanto o carro atravessava a Estrutural, começava a ouvir o repique dos tambores. A percussão repercutia no corpo dele. Movimentos de brasileiro pudico que quer se libertar. Virgem de carnavais e de quase tudo mais, Tarcísio pisava a Passarela da Alegria com o entusiasmo e ansiedade da primeira vez.

Os carros alegóricos em nada lembravam a parafernália carioca. Tudo mais rudimentar, sem adornos nem excessos. Bem a gosto de um sujeito agora bronco, como ele se queria. Quase não havia plumas nas cabeças das mulatas. Muita gente preta, quase uma fantasia que pessoas com aquela cor existiam. Fato era que subsistiam – e nas esquinas do grande avião em que viviam. E negros, moradores de Ceilândia, das circunvizinhanças excluídas, pobres e carentes se aproximavam, amontoavam-se, sufocavam-se. E Tarcísio, fóbico, no meio daquele pandemônio, uniformizado de outrem, sem expressão nítida, estava feliz. E se esfregava no povaréu, doido para perder o cabaço da timidez de outrora.

Dentre o abre-alas, vieram lança-perfumes e lança-chamas. O corpo abriu-se para o remelexo. Caiu no samba e, bamba na avenida, tombou diversas vezes. Passou a mão em nádegas de todas as cores e fantasias. Aproveitou ao máximo até desabar rumo ao dia seguinte. E, no amanhã de cabeça moída, despertou num banco de praça de Ceilândia. Estava nu, mas a máscara havia resistido à noite. Levantou-se com dificuldade, amparado apenas na mínima lembrança que tinha. Foi o melhor carnaval que o fantasma viveu.
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A MIOPIA DE NAIR [Jan. 16th, 2006|11:24 pm]
Piscou e teve vontade ser. Viver o dia todo com óculos impedia que ela visse o que realmente queria.
Deixava a armação só durante a noite. Aí sim, podia encontrar no inconsciente os desejos mais calados.
Na manhã seguinte, contudo, voltava a vestir a máscara.
E se vestia de pessoa respeitável, zelosa por si e outrem. Imagem distorcida.

As lentes grossas fizeram-lhe sisuda. Não mudou e nem se preocupou em ser tachada de séria ou até mais velha.
Permaneceu com os aros fortes - semblante de controle e segurança.
Ela desconhecia a própria letargia. Era alguém e não sabia.
Sempre tão árida, silenciosa, responsável... Quem iria imaginar?

Um dia, antes de entrar no chuveiro, tirou os óculos. Aproximou-se do espelho e se contemplou.
Viu-se de um jeito diferente, resolveu até sorrir. Esfregou os olhos e se descobriu bela e livre.
Despiu-se de pudores e de cenas em preto-e-branco. Nunca um banho havia sido tão revelador.
Sentiu o cheiro das cores enquanto o vapor lhe aquecia o corpo.

A descoberta suscitou o temor do porvir. Não conseguiu enxergar-se assim tão solta, quase alada.
Desenhava-lhe asas, mas logo apagava com a borracha que chamou bom senso.
Ser diferente era tão tentador. Ser ela mesma, na verdade, podia fazer-lhe tão bem...
Porém, nunca fora afeita a mudanças. Não conseguiria mudar.
Além disso, a fantasia latente estava cegando o que mais preservava: o olhar ponderado acerca de tudo.

Piscou e teve vontade de ser. E foi. Depois de tanto matutar, decidiu tentar o novo visual.
Abandonou os óculos em favor dos olhos. Deu uma borrifada da própria essência no pescoço e nos peitos.
Disse adeus à dona daquela visão embaçada, escondida sob as lentes.
Encontrou o foco, enfim.
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ADEUS, ANO VELHO [Dec. 31st, 2005|06:47 pm]
[Trilha sonora: |Diana King - "I Say a Little Prayer for You"]

Figurinha repetida, este post é uma extensão do último 31 de dezembro.
Algumas alterações na configuração original: mais valem títulos que meses.
Doze nomes ou expressões para celebrar cada mês de 2005.
E eis uma miscelânea de episódios, dilemas, pessoas ou animais que fizeram meu ano!

1 - REDAÇÃO
Chovia quando fui apresentado à "senzala", apelido carinhoso da rádio-escuta – mistura de fios e água. Alimentei a redação com palavras. Dava adeus ao Campus depois de mergulhar nos pântanos de Hélio Punk. Troquei as bolas e as pautas e acabei vendido. Os maus-tratos de animais no Correio Braziliense! Aproveitei para nadar contra o complexo.

2 - FAZ-TUDO
No Carnaval, nada de confetes; que tal degravar o Ceilambódromo? Conheci os gritantes, cada qual com um drama. Sem lanche, ouvia pedidos de socorro. E ia atrás do meu sonho. Dias de batata machadiana ou obras do GDF. Primeiro contato com os cotistas - deveras. Nas horas "vagas", telejornalista. Olhei para a câmera, tremi, mas gostei. Cortei o cabelo e enterrei o antes.

3 - O MUNDO NOS ESPERA
Da Redação, do coração. Grandes amigos podem nascer dentre notícias menores. Isabel convida-me para ser colega de Rodolfo. Mostro a Fred como funciona a Grita. Um pequeno quiprocó e uma demorada seleção: boa-tarde ao Mundo. A loira do curso de telejornalismo vocifera. Eu gaguejo. Gabriel me repreende.

4 - BROWNEI
Tão miúdo e frágil, cabe na minha mão. E no meu colo, chora de falta dos pais e dos irmãos. Abraço-o e lhe prometo uma família e todo o amor possível. Ganho um grande amigo e perco outro. E a Ana, por que tão distante? Namoro a idéia "monitorandas". No Rally, Fred navega enquanto Rodolfo borda, Ivan briga e eu dirijo.

5 - AMIG@S
Torno Mira e Ana de volta ao seio. E lhes apresento um mundo de outros sujeitos. Gabriel e Rodrigo, os amigos de sempre, estão redundantemente aqui. A revolução parece proposital - e é. Estou mais bem informado sobre História. Aprendo a conviver com editores. E com o Rodolfo, com quem formo uma dupla ecologicamente correta. Decido morar seis meses em Sampa para o curso do Estadão. Mammit esbraveja.

6 - ROTAÇÃO
21 anos - a última idade comemorável. Passo a madrugada com Brownei passando mal. O presente-surpresa vem no dia seguinte: eu sou global. Mundial? Não, global! Mas o João pede pra eu pensar melhor. Na hora H, erro o discurso preparado com a advogada e falo a "verdade". A narrativa do réu (!) condena-me a pagar três mil. Crise familiar dá o tom do inferno astral pós-niver. Brownei late sadio enquanto eu cogito.

7 - QUEM CANTA OS MALES ESPANTA
A família dá as mãos e depois aplaude. Eu canto italiano, brasileiro e desafinado. Mas canto. E dou cantadas... Péssimas! Pior: a Ana deixa. Ainda bem que colam! Ela tem uma aura de mistério e gingado. Demoro horas até o nosso primeiro beijo estilo nada clichê. Apesar da desmotivação na TV, ela acende-me para o ano inteiro!

8 – CARRARA
Ela não quer me ver, mas deixa o xale no meu carro. Somos namorados que se tergiversam reciprocamente. Quando não é demais, é bom. Mas com ela é só constelação. Estou apaixonado. E estou atrapalhado no Parque da Cidade com a Ana e o Brownei. E estou na expectativa, em meio a ilações com Rodrigo e Lia. E estou tão apaixonado que me entrego. E quase me perco. Chattyana e Ana partem rumo a meu resgate.

9 – HIPERCONDRÍACO
Não dá pra esquecê-la. Mas comigo, oito ou oitenta. Oitenta razões pra eu me preocupar: Chattyana e Ana não me poupam. Tourinho dá conselhos diante do meu problemão! Rodolfo nem considera a hipótese. Transtornos em dobro, prazeres de menos. E ela? Continua me perseguindo na cabeça, no coração e na vida real. O castigo: um duplo encontro. Mas o cafajeste se dá mal de novo...

10 – OPERAÇÃO SARA
Para recuperar-me, outras personagens. E viagens. Gabriel e os primos apresentam-me para cachoeiras. Desnudo as preocupações de outrora e as converto em vento. A ventania, porém, é brava e eu caio doente. Seqüelas de um amor perdido, curo-as com abdominais e pesinhos. E tem alguém aí também...

11 – NOVELA
Haydée, a dona do segundo xale mais mágico do ano, abandona-o e vence a cleptomania. Elaboro tramas e construo personalidades. Mammit é vitoriosa: convence-me a prestar concursos públicos. E até que não vou mal. Referendo-me e estudo nos fins de semana. Nada de final infeliz: Milky e Brownei são amigos, enfim!

12 – DIEGOOOOL... NÃO! FOI NA TRAVE!
2005 quer sair de cena. E eu que deveria ter me formado nesse ano... E eu que pensei: “é meu grande amor”... Tudo foi na trave. Em dezembro, tantas festinhas e alguns grandes amigos. Por Mammit e Mica – e por mim –, escolho Porto Alegre. No centro, descubro que pertenço a duas cidades. E a dois mundos. Pego o vôo definitivo. Agora, é pra valer!
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HIATUS [Dec. 18th, 2005|12:08 am]
[Trilha sonora: |Madonna - HUNG UP]

Recesso mínimo, mas suficiente para repor as energias perdidas durante o semestre.
Este não teve quase nada de letivo, mas de trabalheira, expediente e coisas de adulto!
Aliás, faz um ano que não tenho uma semana de descanso... Nem quando saí do CB rumo à TV, consegui descansar por causa dos trabalhos finais do 7º semestre.

Enfim, acredito que vou descansar um pouco.

FELIZ NATAL PARA TODOS!
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AGRADECIMENTO [Dec. 17th, 2005|11:57 pm]
[Trilha sonora: |The Wallflowers - HEROES]

Do mesmo jeito que eu, Targino correu atrás de sua oportunidade.
Queria ser o dono da vez, do sonho que cultivou dentre jornais quase amarelos.
Afinal, quando a informação partiria dele e não de mãos enrugadas?!
Parece que tardou, mas - acredite, amigo - veio no momento certo.

Pouco menos de um ano depois de mim, rendo-lhe homenagem similar à que me prestou.
Trabalhar em redação era pra você uma meta e, em pouco tempo, será uma realidade.
Espero que mantenha a obstinação que lhe é peculiar e lhe faz esse sujeito apurístico!
Neste Natal, luz e targenia para que 2006 comece com o pé direito e global.

Parabéns!
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MI CORAZÓN LATE POR BROWNEI [Dec. 17th, 2005|11:47 pm]
[Trilha sonora: |Seal - CRAZY]

É tão bom vê-lo respirar enquanto dorme.
Feito de pelúcia, meu cachorro parece um animal sagrado.
Não sei se é o melhor amigo do homem, mas é um dos.
Balança o rabo quando chego em casa, depois de um expediente extenuante.
Expressa a alegria de um fã - canino, lambão e bagunceiro!
Leal, aceita o abraço que lhe dou em momentos de frustração e me conforta.
Adora passear, fazer amigos, descobrir novos pontos estratégicos de xixi.
Prefere o meu travesseiro ao tapete.
Dá saltos, faz acrobacias, rola no elevador se fomos pegos pela chuva!
Fica de barriga pra cima, ávido por cócegas, não pára quieto.
Compartilhamos o momento da refeição. Ele, na tigela com ração. Eu, no prato com comida.
Viramos dois irmãos gêmeos, pai e filho, amigões inseparáveis!
Vou sentir muito a falta desse molecão durante o meu hiatus.
AU AUUUUUUUUU!
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A CONCEPÇÃO II [Dec. 1st, 2005|10:25 pm]
Os três alugaram um vídeo concepcionista de Belmonte.
Trancafiaram-se em um apartamento da 305 Sul.
Os olhos de Ives, Darci e Ives absorveram as cenas de drogas e sexo.
Decidiram repetir entre eles o que sentiam e descobriam na ficção.

A idéia partiu da tímida Ives, ávida por conhecer o limite do corpo seu e alheio.
Preparou a todos um drinque enquanto o sabido Ives lhes enrolava um baseado.
Darci concordou que, anestesiados e alucinados, gozariam melhor da tríade.
Entre os três amigos, os pudores logo davam lugar à maconha e ao álcool.

Ligaram a vitrola ainda impúbere e ensaiaram a coreografia da sedução.
Peões de xadrez, torre, rainha e bispo. Sem coroas nem batinas, prontos para jogar.
Esfregavam o corpo vestido uns nos outros a fim de provocar-se.
Língua dele na orelha dela. Seis mãos nada bobas. Zíper aberto. Corrente da santa no chão.

Amontoado de gente, pele, suor. Todos são de todos. Viraram um corpo só de tração.
Agarravam-se e arrancavam-se. Despiam-se de vergonha e consciência. Superação do superego.
Roupas no piso, máscaras rasgadas, três bocas sorvendo o oxigênio de cada um.
Flutua o trio em livre fluxo de nudez. Plenos e acorrentados. E alados.

Ébrios no cio da juventude, deglutiam-se em totalfagia.
Hora do xeque mate. Sem escapatória, estavam juntos para conceber as próprias vidas.
Embrião de um novo som: Ives dava à luz gemidos de Ives, abafados pelos beijos de Darci.
As três peças rolaram no tabuleiro até subirem os créditos do dia seguinte.
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HAYDÉE [Nov. 10th, 2005|10:47 pm]
[Trilha sonora: |DIANA KRALL - The Look of Love]

Deixou o xale escapar-lhe das mãos.
Não perdeu o chão, o objetivo, a direção.
Fez de propósito; era o momento de corrigir os erros do passado.
Sorriu por deixar para trás o que só trouxe dor outrora.

Estava cansada de roubar o que não tinha e, por isso, devolveu.
Havia perdido o tempo, a paixão, a sensação; vivia para resgatá-los.
Só recuperava o sentimento ao afanar o que lhe era de direito.
E seu chale permitia adonar-se de qualquer coisa que a completava.

O echarpe ficou lá, morto e esquecido no piso frio do aeroporto.
As chegadas e partidas sufocavam todos os monstros de antes.
Deu o primeiro passo rumo à felicidade, enquanto seus cacos se beijavam.
Recomposta, a imagem despedaçada ganhava contornos de final feliz.

O som das turbinas revezava-se com o piano de Diana Krall.
Assim que aterrissou na vida, reviu o seu grande amor.
A palpitação da juventude persistiu, mesmo calada por um equívoco.
A viagem fez todo o sentido quando se reencontraram para sempre.
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RECOMEÇOS [Oct. 16th, 2005|01:45 pm]
Primeiro raio de um verão, primeira raia da piscina.
Primeiro, ver o que não é; sentir o que não há; viver de longe.
Primeiro sopro no coração depois do último que o parou.
Primeiro, esperar pelo que não vem; sonhar enquanto não chega; suspirar.
Primeiro, caminhar sobre a água, flutuar sem rumo; terra pra quê?
Primeira decepção antes de qualquer outra, por favor.
Primeiro alfabeto de perdas; leio, escrevo e conto.
Primeiro, a certeza do fim e, por isso, só o princípio.
Primeira mão suada, olhar apaixonado, tremor de prazer...
Primeiro, amar hoje e sempre para que não seja a última vez.
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